Para aonde o discurso capitalista está levando o ser humano?

Oi Gente

O post de hoje é um convite a reflexão sobre até aonde chegará o sofrimento do ser humano, diante de um discurso capitalista?

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O objetivo aqui não é discutir política, ideologia e se existe ou não um sistema melhor que outro, até porque quando se lê a proposta desses sistemas, existentes hoje no mundo, tem lá um discurso bonito na teoria e na prática nem sempre é o que acontece.

Observamos, atualmente, uma forma de viver do ser humano diferente de outros tempos. O culto a imagem, a busca do sucesso e reconhecimento, parece ser o objetivo a ser alcançado a qualquer custo pelos indivíduos.

Os bombardeios de informações, por todos os lados, nos diversos meios de comunicação, criando-se mais e mais necessidades que deixam o ser humano cada vez mais desconfiado e sem saber o que é certo ou errado ou, ainda, sem saber em quem mais acreditar, pode ser uma das causas de tanto adoecimento, levando os setores de atendimento a saúde sem condições de atender toda a população necessitada de atendimento.

Na contramão disso tudo, observa-se frustrações, aumento da violência e insatisfações. Vale lembrar sobre o aumento nas estatísticas sobre o aumento de casos de suicídio, mortes violentas e o aumento dos problemas na área da saúde mental.

Colette Soler, em seu livro Declinações da angústia, se propõe em uma de suas aulas a refletir exatamente sobre isso. Com suas palavras, inicia o capítulo assim: “Engajei-me num desenvolvimento que visa mostrar que a angústia – sentimento universal – tem, no entanto, condições de discurso, e isso me levou a lembrar a tese segundo a qual todo indivíduo é um proletário. (…) que a angústia moderna é uma angústia desse proletário generalizado, se posso assim dizer, proletário generalizado do qual Lacan fala, e que ele define de maneira extremamente precisa dizendo que cada um, como indivíduo, não tem como fazer laço social. Eis aí sua definição do proletário que é, evidentemente, muito distante da definição marxista”. p. 96

O que é preocupante é o aumento da dificuldade de se manter os laços sociais e, até mesmo dentro das “famílias” onde tanto se fala da importância dela, parece que há um aumento de desentendimentos e sofrimentos espalhados como se cada um, nas diferentes idades, falassem línguas diferentes. “O indivíduo não tem como fazer laço social pelo fato, precisamente, de que o discurso capitalista, desfaz os lugares a partir dos quais se constituem os discursos e, ao desfazer esses lugares, desfaz, ao mesmo tempo, os laços sociais que esses lugares condicionam. O resultado é esse círculo fechado entre o sujeito e seus objetos, no qual o sujeito é tanto comandado pelos produtos quanto comanda a produção dos mesmos.”p. 96

Nos tempos atuais, ainda, verifica-se cada vez mais o aumento de problemas de saúde, porém não detectáveis pelos inúmeros exames físicos, quando da sua busca por uma resposta em seu médico clínico ou especialista de confiança e o que se escuta é que os problemas, provavelmente, são de origens emocionais e está na hora de buscar um psicólogo ou psicanalista para falar a respeito.

O que está acontecendo com a humanidade? A civilização tão almejada está em decadência?

Embora o início do Sistema Capitalista tenha passado por algumas fases após o termino do feudalismo, foi com a Revolução Industrial, na Inglaterra, em 1790, que esse sistema foi se estabelecendo de uma forma mais acentuada, quando surgiram os avanços nos meios de produção. “O capitalismo tem uma primeira condição: é a ciência. (…) é a ciência que possibilita as técnicas da revolução industrial e o desenvolvimento do maquinismo sobre o qual repousa o capitalismo.” SOLER,C. p. 96

Surge a máquina a vapor, onde foi um avanço para a circulação de produtos e pessoas, bem como outras formas de trabalho, onde a produção e consumo se tornam fundamentais para que o Sistema pudesse se instalar definitivamente até os nossos dias.

Segundo Soler, não se trata apenas da ciência, mas também há a Revolução Francesa. “a Revolução Francesa colocou a ideologia em compasso com esta reviravolta, de uma maneira muito precisa, por meio da promoção da ideologia dos direitos do homem, sobre a qual vivemos ainda. Essa ideologia não cessou de ter efeitos que, aliás, nem sempre são aqueles que se imagina”. p. 98

A pergunta que vale a pena uma reflexão

Como ficou o homem, diante de todas essas mudanças e quais foram, ainda, o custo e benefício dessa nova forma de realizar trocas para a sua sobrevivência?

Somos seres sociais e para isso é preciso que haja os laços sociais, que, na contemporaneidade, observa-se que estão cada vez mais difíceis de se estabelecer. Embora, mesmo diante de tanta aglomeração de pessoas, o indivíduo se encontra só.

Só para citar um exemplo, em uma conversa com um consultor de RH, o mesmo me disse que a juventude hoje está bem avançada quanto aos assuntos de tecnologia e, até mesmo, de conhecimentos em suas áreas de atuação, porém, quando é preciso que vá a algum lugar ter um contato pessoal, seja para participar de uma reunião ou fechar um negócio, está cada vez mais difícil encontrar funcionários com essa habilidade.

Alguns comentam que estamos vivendo tempos difíceis, porém vale lembrar que o sofrimento humano já faz parte da humanidade, não somente depois da implantação do Sistema Capitalista. Inclusive, quando voltamos no tempo, havia sim as limitações por falta do próprio desenvolvimento que dificultava a sobrevivênvia e o sofrimento humano estava em todas as áreas.

Ai vale uma outra pergunta: O progresso e a evolução não teria como objetivo criar facilidades e melhores condições de vida para a humanidade?

O que está acontecendo com o ser humano, onde tantos desentendimentos levam a solidão, violência e doenças? Pode-se pensar que é esse discurso capitalista que está adoecendo a nossa sociedade? Será que todos nós, independentemente de classe social, não estamos sendo vítimas desse discurso?

Mas, o que podemos pensar sobre o que se trata esse discurso capitalista?

Você já observou ou já ouviu sobre o fato de que ninguém tem mais tempo para nada. É um corre corre pra lá, um corre corre para cá, as pessoas se atropelando em busca da sua mínima sobrevivência. A empatia, tão necessária ao ser humano, está deixando de existir?

Os patrões correndo de um lado para garantir e atualizar o seus meios de produção, em busca de lucros e aumento de seu capital, sem contudo poder usufruir daquilo que se ganha, pelo contrário, sendo vítimas de estresse, pressão alta e, em alguns casos, vitimas fatais em nome de garantir e proteger seu patrimônio e capital, principalmente os que estão na meia idade.

Por outro lado, observa-se os empregados, quando encontram emprego, vale lembrar desse triste fato, enfrentando a sua luta diária para que possa com seu salário, pelo menos, garantir sua alimentação e condições mínimas de sobrevivência, para que possa se manter nessa roda-viva do seu dia a dia, sendo cobrado por mais e mais esforço para que possa adquirir bens que em algum lugar disseram que se faz necessário.

As empresas tem que produzir cada vez mais, diminuindo o custo de produção, para permanecer no mercado, tendo que administrar os seus negócios e, ainda, acompanhar seus concorrentes, em uma competição diária, em busca do dinheiro que foi criado para facilitar a troca de mercadorias. O número de empresas que abrem e fecham, acabando com o sonho de prosperidade de um grande número de pessoas, chega a ser alarmante.

A mão-de-obra, nem sempre em condições de ser especializada pelas dificuldades de bancar os custos de uma boa formação, se obriga a se sujeitar a irrisórios salários que mal dá para garantir as condições mínimas para sua família e, ainda, tem que conviver com o discurso capitalista que vai criando mais e mais necessidades para que o consumo seja incentivado. Assim, cria-se um círculo onde há a necessidade cada vez maior de aumentar a produção e o aumento de consumo para que se possa manter o Sistema em andamento.

Nesse círculo vicioso, onde não há tempo para sequer pensar, o ser humano está adoecendo de todas as formas imagináveis, sem se quer ter tempo de saber exatamente o que vem acontecendo com ele próprio. Corre atrás de exames e mais exames, de medicamentos, de alimentação diferente e lá está o seu corpo a reclamar e desenvolver sintomas que, nem sempre, sabe-se a sua causa e, ainda, em alguns casos, se ver obrigado, com o pouco que se tem, a gastar em seus tratamentos, seja com plano de saúde, com medicamentos e tratamentos para se manter em pé e permanecer dentro desse círculo, criado por um discurso.

As pesquisas científicas, nas mais diversas áreas, buscam cada vez mais formas de prolongar a vida do ser humano, prometendo, algumas vezes, resultados que jamais serão alcançados. É o discurso da busca pela juventude eterna e o retardamento do envelhecimento, bombardeando os canais de comunicação, como se não existisse os acasos na vida a que todos estão sujeitos.

Crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos, todos enfrentando de certa forma desafios diários, cada um em sua fase, tendo que lutar com os tipos de sofrimento que aparecem no dia a dia. Aí eu me pergunto: Será que já não está na hora de surgir um novo tipo de Sistema que possa trazer um discurso que seja voltado para a melhoria e bem estar do ser humano e não para a sua deteriorização? Será que estamos próximos do fim do sistema capitalista? ou, ainda, está chegando a hora de se pensar em outro tipo de sistema, admitindo que essa forma de viver já não condiz com aquilo que, nós seres humanos, precisamos para sobreviver?

Assim, como se passou do feudalismo para o Capitalismo, não está na hora de surgir um novo sistema totalmente diferente desses que já conhecemos e que não tem contribuído para o bem da humanidade?

Embora, geralmente, se pense na dor de se perder um ente querido mas, nem sempre, se pense que também somos seres mortais, a verdade é que todos estamos por aqui por um determinado tempo e a única certeza é que, para cada um de nós, um dia terá um fim. Por mais que se busque, através de procedimentos, a juventude eterna e a imortalidade o dia de cada um chegará.

Será que essa forma narcísica de se viver na atualidade, pode-se dizer que é uma tentativa de lidar com a situação? Será uma forma de negação de ver a realidade? Será?

Somos seres sociais e o afeto sim é uma necessidade básica para o ser humano e, apesar de sermos vítimas de um discurso que nos tem afetado de um modo negativo, penso que cada um deverá encontrar o seu modo de ser menos afetado por esse discurso capitalista, aprendendo a respeitar as diferenças de cada ser humano, lembrando que a sua frente vai um semelhante seu, com uma história própria, porém também vítima de um sistema. Vale lembrar, ainda, que estamos todos no mesmo barco e que para que esse barco possa navegar e não afunde é preciso a colaboração de todos para uma convivência sem julgamentos, discriminação e violência. É o mínimo que podemos fazer, uns para os outros, em uma situação sem solução a curto prazo.

Enfim, será que pode-se pensar que esse atual discurso capitalista já não condiz com aquilo que o ser humano realmente necessita?

Deixo aqui mais um texto relacionado ao assunto.

Era isso por hoje.

Obrigada pela sua visita. Você é sempre bem vindo(a) por aqui.

Um abraço.

Referência:

SOLER, C. – Declinações da Angústia – Ed. Escuta – São Paulo, 2012.