Como é o trabalho do Inconsciente na Cultura?

Oi Gente

O post de hoje traz aqui para você um pouco sobre o trabalho do inconsciente na cultura, ou seja, como o nosso inconsciente pode se adequar ao que nos é solicitado pela Cultura. O assunto nos leva a refletir sobre a que, como seres humanos, inseridos em uma determinada Cultura estamos sujeitos a aceitar ou não e o que podemos fazer com isso…

 

O sujeito, ao nascer,  já encontra uma civilização ali posta. Segundo Cuéllar (2010) para se trabalhar é necessário que o sujeito renuncie o seu gozo. Essa renúncia se refere à satisfação pulsional. Segundo Freud, 1927/1996, no universo da civilização, onde não deixamos de trabalhar,  “o trabalho cultural” comporta uma “renuncia ao pulsional”, ou seja, um “sacrifício da satisfação pulsional”, o que mais tarde Lacan vai dizer que “o trabalho implica renúncia ao gozo (LACAN, 1968-1969/2006, P. 39. Essa renúncia ao pulsional é que vai gerar um certo mal-estar, “mal-estar de alguém, seria então provocado pelo trabalho de algo. Trabalho de que? Lacan responde: “trabalho do inconsciente” (CUÉLLAR, 2010, P. 47).

Se o que diferencia o homem dos animais é a linguagem, é através do significante de uma linguagem que distingue essencialmente as sociedades humanas das sociedades animais. (LACAN, 1961-1962)  e é essa linguagem que é o sistema significante com qual o inconsciente está estruturado. Sendo assim, o inconsciente e a cultura terão a mesma estrutura significante da linguagem. (CUÉLLAR, 2010).

No trabalho do inconsciente, cada sujeito possui sua singularidade, uma vez que sua formação psíquica está diretamente relacionada com sua história de vida, sua hereditariedade e toda complexidade envolvidas na formação e estruturação de seu ego. Esse sujeito ao nascer já está inserido em uma cultura e o seu trabalho do inconsciente está diretamente relacionado com o trabalho simbólico dessa cultura. Assim, segundo Cuéllar (2010) “o trabalho do inconsciente não somente cumpre com o trabalho do sistema simbólico da cultura, como também implica uma renúncia ao gozo real da vida: uma dolorosa renúncia na qual radica o mal-estar na “cultura”. p. 48

Diante desses fatos constituintes do sujeito, a cultura vai se apropriar do princípio do prazer, que é inerente ao sujeito, para criar um sistema simbólico da cultura utilizando-se da insatisfação constante dos sujeitos. “A insatisfação é assim explorada pelo sistema simbólico, o qual, para funcionar e perpetuar a cultura, necessita o descontentamento, a insatisfação constante dos sujeitos”. (CUÉLLAR, 2010, P. 58.  O Sujeito insatisfeito vai estar disponível para a cultura, em suas solicitações para buscar essa satisfação.

No Sistema Capitalista a produção e o consumo daquilo que é produzido pelo homem, gerando o lucro, lucro este que vai garantir o desenvolvimento e manutenção desse sistema, fazer com que o sujeito permaneça insatisfeito é o “grande trunfo”para a sustentação e permanência dessa Sistema Capitalista, uma vez que estando insatisfeito ele estará à disposição dessa cultura, respondendo as suas solicitações. A busca de um prazer visando aliviar essa insatisfação do sujeito, é o que fará com que a cultura se aproprie dessa situação para poder manter o sujeito “alienado” àquilo ao que o Sistema solicita. Segundo Cuéllar (2010) “além de realizar o trabalho cultural que permite a produção incessante de tudo aquilo de que é composta a cultura, a insatisfação constante provoca um gozo que permite, por sua vez, o consumo permanente de tudo aquilo que foi produzido pelo sistema”. p. 58

É na manutenção da insatisfação do sujeito que a cultura garante sua permanência: “quem continuaria produzindo e consumindo uma vez que estivesse satisfeito com seu consumo? É a insatisfação permanente  dos consumidores que faz com que sejam tão bons consumidores e tão bons trabalhadores e produtores (…) É por isso que o consumo deverá ser insatisfatório. Será insatisfatório porque não será consumo senão de artigos cujo valor é puramente simbólico, artigos que não podem ser comparados ao gozo real da vida ao qual se há renunciado para produzí-los e consumí-los, artigos que jamais compensarão esse gozo perdido (Cuèllar, 2010, p. 59).

 

Esse mal-estar na civilização abordado por Freud em que também por Lacan se posiciona tão consistentemente junto à psicanálise, é atribuído ao trabalho no sujeito do seu inconsciente. Cuéllar (2010), embasado nos estudos de Freud e Lacan, destaca que “em uma cultura na qual não se deixa de trabalhar, é o inconsciente que trabalha sem cessar e que assim mantém permanentemente nosso mal-estar”. p. 47. Assim o inconsciente trabalho em tempo integral; mesmo que conscientemente o sujeito tenha terminado o seu trabalho, o inconsciente continua a trabalhar, mesmo nos momentos de lazer e descanso.

“Quando o inconsciente e a cultura trabalham, seu trabalho é o do sistema simbólico (…) realizado em cada sujeito. O trabalho do inconsciente não somente cumpre com o trabalho do sistema simbólico da cultura, como também implica uma renúncia ao gozo real da vida, uma dolorosa renúncia na qual radica o mal-estar na cultura”(Cuéllar, 2010, p. 48

A cultura quando explora o mal-estar do sujeito, como força de trabalho, na realidade está explorando o desejo do sujeito. “Existe um desejo porque existe algo de inconsciente, algo da linguagem que escapa do sujeito em sua estrutura e seus efeitos; há sempre no nível da linguagem alguma coisa que está além da consciência. É aí que pode se situar a função do desejo”. (LACAN, 1996, apud FORBES, 2013).

Enfim, uma vez que a cultura explora esse mal-estar do sujeito, e conforme já dito que o sujeito vai buscar formas alternativas para amenizar esse mal-estar, o trabalho alienante ao qual o sujeito se submete, é então uma outra forma da qual a cultura se beneficia e se apropria, apresentando ao sujeito a falsa ideologia de que ele encontrará também aqui uma forma de felicidade.

Era isso por hoje.

Obrigada por sua visita. Você é sempre bem vindo(a) por aqui.

Um abraço.

 

 

 

Referências: 

CUÉLLAR, D. P. – Trabalho do Inconsciente e mal-estar na cultura. Ver. A Peste, v. 2, n.1, p. 45-61, São Paulo, jan/jun 2010.

FORBES, J. – Comentário do texto de Jacques Lacan, projeto análise, http//www.jorgeforbes.com.br

LACAN. J. O Seminário 07: a ética da Psicanálise. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1991.

FREUD S. – Obras Completas – O mal estar na Civilização, Rio de Janeiro – Imago, 2006 vol XXI