A influência de um grupo sobre o indivíduo

Oi Gente

O objetivo desse post é refletir e trazer aqui para você a influência de um grupo sobre o indivíduo, segundo os estudos de Le Bon.

Freud, no seu artigo sobre “a descrição de Le Bon da mente grupal” nos traz algumas citações de Le Bon e nos chama  a atenção sobre o fato do que pode ocorrer com o indivíduo ao estar inserido em um grupo.

Em um momento onde estamos diante de alguns fatos de violência, principalmente em nossos estádios de futebol, onde se chegou ao cúmulo de duas torcidas não poderem estar no mesmo jogo, talvez os estudos de Le Bon, citados por Freud, pode nos ajudar a entender um pouco sobre essa questão...

Primeiramente, vamos falar um pouco sobre quem foi Le Bon, de onde Freud se baseou ao escrever esse capítulo de seu livro Além do Princípio de Prazer, Psicologia de Grupo e outros trabalhos (1920-1922), sobre “a descrição de Le Bon da mente grupal”. 

Quem foi Le Bon?

Gustave Le Bon

O francês Charles Marie Gustave Le Bon foi médico, psicólogo social, sociólogo e físico amador que viveu no período de 1841 a 1931. A sua obra foi considerada de grande relevância no século XX, escreveu várias obras sendo uma das mais conhecidas: A multidão, de 1895.

Le Bon Nasceu em Nogent-le-Rotrou, no Vale de Loire. Sua mãe Annette Josephine Eugénic Tétiot Desmarlinais, tinha 26 anos e seu pai Jean-Marie Charles Le Bon, funcionário do governo francês tinha 41 anos. Aos oito anos, devido a uma promoção de seu pais, Le Bon, seu irmão mais novo e toda a família  deixa sua cidade Natal e nunca mais retornou. Não se sabe muito sobre sua infância, mas  foi um estudante excepcional do Lycée na cidade de Tours, na França.

Em Paris, no ano de 1860, iniciou seus estudos de medicina na Universidade de Paris, concluindo seu curso em 1866, onde a partir daí Le Bon se referia a si mesmo como “Doutor”, mesmo não tendo trabalhado formalmente como médico. Durante a faculdade Le Bon já escreveu uma variedade de textos em sua área de medicina, sendo o primeiro relativo aos males causados a pessoas que viviam em condições semelhantes a pântanos.

Le Bon como Oficial Médico no Exército Francês

Le Bon desenvolveu uma paixão pela escrita, escrevendo vários artigos sobre fisiologia e estudos sobre a reprodução sexual. Participou do Exército Francês como oficial médico e, durante a guerra, foi responsável por organizar a divisão das ambulâncias militares. Sua experiência levou-o a observar e  escrever sobre o comportamento dos militares, principalmente quando derrotados, escrevendo suas reflexões sobre a disciplina militar,  liderança e o comportamento do homem em estado de estresse e sofrimento. Seus estudos e reflexões foram reconhecidas e elogiadas pelos generais o que levou a serem estudadas em academias militares da França, como em Saint-Cyr  por exemplo. 

As viagens de Le Bon

Em 1870 Le Blon se interessou pela emergente Antropologia, realizando viagens pela Europa, Asia e Norte da Africa e a partir de várias pesquisas de campo, ele postulou uma correlação entre inteligência e capacidade craniana. No ano de 1879, chegou a ganhar o prêmio da Godard da Academia Francesa de Ciências. Durante suas pesquisas inventou um cefalômetro portátil que media as características físicas de povos remotos, escrevendo um trabalho a respeito do assunto.

No ano de 1884, o governo francês contratou Le Bon para pesquisar as civilizações da Asia. Suas viagens resultaram na escrita de vários livros onde ele acreditava que a cultura era influenciada pelos fatores hereditários como sendo as características raciais únicas de um povo. Foi o primeiro francês a visitar o Nepal o que resultou em um livro sobre suas pesquisas por lá – Voyage a Nepal publicado em 1886.

Le Bon – em sua viagem à Argel – capital da Argelia

Suas viagens prosseguiam, visitando a Índia, onde elogiou sua arquitetura, porém manifestando a opinião da inferioridade desse povo o que facilitou o domínio britânico. Discursou no Congresso Internacional Colonial, criticando as políticas colônias e é dele essa frase “Deixem aos nativos, seus costumes, suas instituições e suas leis”, indo contra ao modo das políticas colônias onde queriam impor a assimilação de suas próprias culturas nos países colonizados.

A maioria de sua viagens eram feitas com cavalos e, a partir de uma experiência onde seu cavalo o derrubou quase o levando a morte, resolveu estudar o comportamento dos mesmos, utilizando de várias fotografias o que mais tarde seus estudos desenvolveria um manual para a cavalaria além de se interessar e extrapolar seus estudos sobre o comportamento dos cavalos para desenvolver teorias sobre educação infantil. 

Em 1894 lança um livro sobre “As  leis psicológicas da evolução dos povos” e no ano de 1895 “A psicologia das multidões” que seria praticamente um resumo de um outro livro lançado em 1881 sobre “O homem e a sociedade de Le Bon” , onde Émile Durkeim faz referência em sua tese de doutorado “Da Divisão do Trabalho Social”, livro esse traduzido em 19 línguas no seu primeiro ano. Posteriormente, Le Bon publica dois novos livros sobre “Psicologia do Socialismo” (1896) e “Psicologia da Educação”(1902).

Le Bon também foi um pesquisador na área da Física, mas em 1908 volta a pesquisar e escrever sobre psicologia publicando novos livros onde expõe seus pensamentos sobre o afetivo e racional, psicologia das raças e a história da civilização.

Enfim, Le Bon continuou seus estudos escrevendo durante toda a primeira guerra mundial, com grandes colaborações para a ciência. Um homem e pesquisador de notável inteligência e respeito dentro do mundo científico. Morreu aos 91 anos no dia 13 de dezembro de 1931, em Marnes La-Coquette – Île de France, deixando uma grande contribuição de seus estudos e descobertas para as futuras gerações. 

Agora que já sabemos um pouco quem foi Le Bon, vamos partir para um pequeno resumo do que Freud escreveu no seu artigo, embasado sobre a descrição de Le Bon.

 

Psicologia de Grupo e Análise do Ego

No texto de Freud sobre Psicologia de Grupo e Análise do Ego, de 1921, na sua introdução Freud cita “(…) A psicologia de grupo interessa-se assim pelo indivíduo como membro de uma raça, de uma nação, de uma casta, de uma profissão, de uma instituição, ou como parte componente de uma multidão de pessoas que se organizam em grupo, numa ocasião determinada, para um intuito definido”. p. 78.

Dentro desse texto de Freud ele, embasados em citações da famosa obra de Le Bon, Psicologia das  Multidões, parte desse estudo para aqui tecer algumas considerações. Assim, esse post vai centralizar mais nessa parte do texto sobre  estudos de Le Bon, que Freud denominou  “a descrição de Le Bon da Mente Grupal”. Agora conhecendo um pouco quem foi Le Bon, ficará mais fácil entender um pouco suas ideias.

Freud questiona: “O que é, então um grupo? Como adquire ele a capacidade de exercer influência tão decisiva sobre a vida mental do indivíduo? E qual é a natureza da alteração mental que ele força no indivíduo?

Freud inicia citando Le Bon e depois vai fazendo algumas considerações. Vou tentar colocar aqui para você de uma forma resumida para que você possa seguir essa elaboração.  

 

Le Bon x Freud

Le Bon – Sobre as peculiaridades apresentadas por um grupo ele diz: “(…) sejam quem forem os indivíduos que o compõem, por semelhantes ou desemelhantes que sejam seu modo de vida, suas ocupações, seu caráter ou inteligência, o fato de haverem sido transformados num grupo coloca-os na posse de uma espécie de mente coletiva que os faz sentir, pensar e agir de maneira diferente daquela pela qual cada membro dele tomado individualmente, sentiria, pensaria e agiria, caso se encontrasse em estado de isolamento”. Para Le bon o indivíduo ao estar em um grupo é como se fosse um ser provisório e os compara como as células de um corpo, ou seja, mesmo sendo indivíduos heterogênios ao se reunirem em um grupo é como se tornasse um único ser, como se as células se juntassem formando um novo corpo.

FreudSegundo Freud, Le Bon não esclarece o que leva o indivíduo a se unir em um grupo, ele, Freud, quer saber o que leva a uní-los. Qual o elo que faz com que pessoas se unam em determinados grupos. Tem algo aí que faz com que seja a característica de um grupo. Freud nos fala “Le Bon pensa que os dotes particulares do indivíduos se apagam num grupo e que, dessa maneira, sua distintividade se desvanece. O inconsciente racial emerge; o que é heterogênio submerge no que é homogênio”  sendo assim, segundo Le Bon os indivíduos quando participantes de um grupo apresentaria um caráter médio.

Le Bon – acreditava que o individuo dentro de um grupo vai apresentar novas características que não possuíam anteriormente e cita três fatores diferentes para buscar a razão disso acontecer. Quais são esses três fatores?

  1. Pelo fato do indivíduo estar unido em um grande número de pessoas, ele poderá se sentir com um poder invencível e assim poderá liberar as suas pulsões, diferente em casos onde esteja sozinho onde suas pulsões são mantidas sob coerção, ou seja reprimidas;
  2. como segunda causa, Le Bon cita o contágio onde o indivíduo nesse momento poderá sacrificar o seu interesse pessoal pelo interesse do grupo “Num grupo, todo sentimento e todo ato são contagiosos, e contagiosos em alto grau, que o indivíduo prontamente sacrifica seu interesse pessoal ao interesse coletivo”. Esse filme  é um bom exemplo. 
  3. a sugestionabilidade, que Le Bon coloca como a mais importante causa, pois o indivíduo quando em grupo apresenta características que, se caso estivesse sozinho, seria totalmente contrárias. 

Freud – chama a atenção para as duas últimas causas citadas por Le Bon, ou seja, sobre o contágio e a sugestionabilidade onde ele diz que não estão no mesmo plano, uma vez que o contágio “parece, na realidade, ser uma manifestação da sugestionabilidade”. p. 83

Le Bon – sobre a importante comparação para ajudar a entender o indivíduo num grupo: ‘Além disso, pelo simples fato de fazer parte de um grupo organizado, um homem desce vários degraus na escala da civilização. Isolado, pode ser um indivíduo culto; numa multidão, é um bárbaro, ou seja, uma criatura que age pelo instinto. Possui a espontaneidade, a violência, a ferocidade e também o entusiasmo e o heroísmo os seres primitivos’.

Ainda, segundo Le Bon:

  • “Um grupo é impulsivo, mutável e irritável. É levado quase que exclusivamente por seu inconsciente”.
  • “Um grupo é extremamente crédulo e aberto à influência; não possui faculdade crítica e o improvável não existe para ele”.
  • “Os sentimentos de um grupo são sempre muito simples e muito exagerados, de maneira que não conhece a dúvida nem a incerteza”.
  • “(…) um grupo é tão intolerante quanto obediente à autoridade, (…) quer ser dirigido, oprimido e temer seus senhores”
  • “(…) quando indivíduos se reúnem num grupo, todas as suas inibições individuais caem e todos os instintos cruéis, brutais e destrutivos, que neles jaziam adormecidos, como relíquias de uma época primitiva, são despertados para encontrar gratificação livre”.
  • “Sob a influência da sugestão, os grupos também são capazes de elevadas realizações sob forma de abnegação, desprendimento e devoção a um ideal”.

Freud – Comenta que outros aspectos das quais Le Bon descreve mostram o quanto se justifica a identificação da mente grupal com a mente dos primitivos. “Nos grupos,as idéias mais contraditórias podem existir lado a lado e tolerar-se mutuamente, sem que nenhum conflito surja da contradição lógica entre elas. Esse é também o caso da vida mental inconsciente dos indivíduos, das crianças e dos neuróticos, como a psicanálise há muito tempo indicou”. p. 86

Le Bon – “Um grupo ainda, está sujeito ao poder verdadeiramente mágico das palavras, que podem evocar as mais formidáveis tempestades na mente grupal, sendo também capazes de apaziguá-las”. 

“(…) os grupos nunca ansiaram pela verdade. Exigem ilusões e não podem passar sem elas. Constantemente dão ao que é irreal precedência sobre o real; são quase tão intensamente influenciados pelo que é falso quanto pelo que é verdadeiro. Possuem tendência evidente a não distinguir entre as duas coisas”.

Freud – diz que, nas verificação da realidade das coisas cai para o segundo plano nas operações mentais de grupo, assim como acontece nos sonhos e na hipnose.

O que Le Bon diz sobre as lideranças de grupos

Quanto a questão da liderança, Le Bon diz que um grupo é comparado a um rebanho obediente, não podendo viver sem um senhor. Querem tanto ser obedientes, que acabam se submetendo instintivamente a qualquer um que se possa indicar como a si próprio como chefe.

Segundo Le Bon, acredita que os líderes para se fazerem notados é preciso que suas idéias sejam para eles próprios uma crença fanática. Ainda, atribui aos líderes um poder misterioso e irresistível, ao que nomeia de prestígio. “O prestígio é uma espécie de domínio exercido sobre nós por um indivíduo, um trabalho ou uma idéia. Paralisa inteiramente nossas faculdades críticas e enche-nos de admiração e respeito.”

A distinção, segundo Le Bon, dos dois tipos de prestígio

  1. Prestígio adquirido ou artificial – É aquele que se liga a pessoa em função de um nome, opiniões, obras de arte, fortuna e reputação, por exemplo. É aquele que está mais ligado a tradição.
  2. Prestígio Pessoal – ligado a umas poucas pessoas, e que tem como efeito fazer com que todos os obedeçam como se tivesse assim um efeito magnético.

Os dois tipos de prestígios está diretamente ligado ao sucesso, pois quando acontece o fracasso ele se perde.

Freud continuará escrevendo sobre a psicologia do grupo e análise do Ego, trazendo outros autores para a discussão na continuação de seu artigo. Mas, nesse post ficaremos apenas com as descrições de Le Bon.

Escrevendo aqui esse post, fez me lembrar uma notícia sobre fatos ocorridos no Espírito Santo, onde aconteceram saqueamentos em supermercados e alguns estabelecimentos comerciais e, uma determinada pessoa depois do fato ocorrido, longe da atividade grupal, resolveu devolver aquilo que havia sido pego sem autorização. Ou seja, quando esse indivíduo, isoladamente,  pensou a respeito do que havia ocorrido percebeu que havia sido, talvez, influenciado pela atividade grupal.

Enfim, embora muitos outros estudos foram sendo elaborados com relação a atividades grupais, o que Le Bon nos descreveu não deixa de chamar a nossa atenção sobre o que pode acontecer quando um indivíduo participa em um grupo, o que pode nos fazer refletir sobre a influência de um grupo sobre o indivíduo e, talvez refletir, sobre os cuidados que deveríamos ter quanto  as atividades exercidas dentro de um grupo, onde poderá fazer com que o indivíduo, se aproveite de uma situação, para expor algo inconsciente que o faz participar de atividades que jamais faria caso estivesse isolado do grupo.

Era isso por hoje.

Obrigada pela sua visita. Você é sempre bem vindo(a) por aqui.

Um abraço.

 

 

 Referências:

FREUD, S.- Edição Standard Brasileira - Além do Princípio do Prazer, Psicologia de Grupo e outros trabalhos, Volume XIII, 
        p. 79-88 - Rio de Janeiro - Imago, 1996.