As 3 fases iniciais da psicanálise

Oi Gente

O post de hoje traz aqui para você um pouco sobre o início da psicanálise, como se deu o desenvolvimento pelo pai da psicanálise Sigmund Freud. Se você gosta do assunto e, mesmo como leigo, quer saber como tudo isso começou, te convido a seguir com a leitura…

 

Em dois textos de Freud, um de 1914 “Recordar, repetir e elaborar” e outro texto de 1925 “Um estudo autobiográfico”, onde ele nos fala sobre a técnica psicanalítica, Freud cita as três fases de desenvolvimento dessa técnica:

  • A fase da Catarse;
  • A fase da Associação-livre;
  • A fase da interpretação

Vamos tentar colocar aqui para você de um modo mais simplificado o que seriam essas três fases, quando Freud ainda um médico jovem iniciava-se os seus estudos e, ao passar um tempo na França, em 1888,  conhecendo os métodos de um renomado médico da época, Jean-Martin Charcot. Observando  alguns sintomas de algumas pacientes histéricas, começou então a observar, tratar, discutir e, assim iniciou as suas hipóteses e teorias.

Vale a pena dar uma olhadinha nesse filme que o ajudará a entender um pouco esse momento do início da psicanálise.

O que seria então essas 3 fases?

1- A fase da Catarse

É nessa fase que Freud utilizava-se da técnica da hipnose, o que mais tarde ele veio abandoná-la por entender que ali havia uma certa sugestão do médico. Quem utilizava dessa técnica terapeutica era Charcot.

Jean-Martin Charcot, um famoso médico francês na área da psiquiatria e neurologia,  utilizava-se desse método da hipnose como forma de sugestão, mas Freud ao utilizá-lo tinha como interesse a investigação, ele buscava assim entender de onde vinham as causas dos sintomas apresentados pelos pacientes, uma vez que os pacientes, em seus estados de vigília, não sabiam falar a respeito ou, ainda, quando tentavam diziam de formas imperfeitas.

Charcot foi quem introduziu o método da hipnose para tratar seus pacientes com histeria, onde os sintomas não tinham uma origem fisiológica. Nas crises da histeria, os pacientes apresentavam sintomas como tiques nervosos, alucinações, paralisias, ausência de consciência, para citar alguns exemplos.

Josef Breuer, médico austríaco e fisiologista, desenvolveu o método chamado catarse, o qual Freud tomou através do relato de caso da paciente chamada Anna O., paciente de Breuer, seu mestre. 

Breuer dividia com Freud os resultados dos seus estudos que passaram a chamar a atenção de Freud, pois o método da Cartase, mesmo utilizando-se da hipnose, porém de forma diferente de Charcot, fazia com que a paciente trouxesse em sua fala situações vividas no passado, as quais estavam em seu inconsciente e, a partir que esses fatos eram trazidos a consciência, observava-se uma melhora nos sintomas apresentados.

Freud continua suas investigações, deixando mais tarde o uso da hipnose por entender que esse método poderia trazer um resultado até certo. A paciente de Breuer conhecida como Anna O., considerado o caso fundador da psicanálise,  dizia que ao falar era como se “estivesse limpando a chaminé”. Mas limpar a chaminé não significa que ela ficará limpa para sempre, o que equivale a dizer que passado um período do tratamento, os sintomas poderiam reaparecer. 

O método da Catarse é uma ideia que vinha dos gregos, ligada a tragédia. Segundo Aristóteles, a tragédia tinha como objetivo que as pessoas sentissem, através dos personagens, se colocando na situação do sofrimento através dos personagens, era como se as pessoas pudessem se comparar aos personagens,  e pudessem assim a passar por um processo de transformação. Esse processo era assim chamado de catarse.

Assim o método da Catarse, através do hipnotismo, visando produzir uma retomada dos afetos e poder assim, através da fala da paciente. 

Segundo Freud, “Em sua primeira fase – a da catarse de Breuer – ela consistia em focalizar diretamente o momento em que o sintoma se formava, e em esforçar-se persistentemente por reproduzir os processos mentais envolvidos nessa situação, a fim de dirigir-lhes a descarga ao longo do caminho da atividade consciente. Recordar e ab-reagir, com o auxílio, era a que, àquela época, se visava”. 

Por que Freud abandona o método da hipnose?

Freud decidiu abandonar esse método e, no ano de 1925, escreve sobre as dificuldades encontradas, tais como: nem todos os pacientes se deixavam hipnotizar; aqueles que aderiam ao tratamento e mesmo hipnotizado nem sempre atingia um estado profundo como Freud desejava e, ainda, mesmo diante de resultados positivos com esse método havia o problema de que, quando essa relação médico x paciente fosse por algum problema perturbada, os resultados benéficos poderiam ser desfeitos, levando Freud a pensar que a relação emocional entre o médico e paciente era mais forte que o método catártico.

Freud deixa de utilizar a hipnose e segue seus estudos passando então para a segunda fase que foi a fase da Associação-Livre. “Quando a hipnose foi abandonada, a tarefa transformou-se em descobrir, a partir das associações livres do paciente, o que ele deixava de recordar. A resistência deveria ser contornada pelo trabalho da interpretação e por dar a conhecer os resultados desta ao paciente”.

2- A fase da Associação-Livre

O objetivo dessa fase seria verificar o que o paciente deixava de recordar e a Associação-livre passa a ser uma regra fundamental da psicanálise. Nessa fase havia a interpretação visando tornar consciente o material inconsciente, buscando assim investigar de onde poderia estar vindo a formação dos sintomas.

O paciente deverá falar o que lhe vier a cabeça, mesmo que pareça que aquilo que está falando nem sempre é o que conscientemente gostaria de falar, como por exemplo algo que venha a sua cabeça mesmo que isso possa lhe trazer uma certa vergonha, ou qualquer coisa tola. É nesse momento, que poderá trazer para a análise algo que nem sequer ele mesmo recordava, mas que estava ali em sua história passada e, que em alguns casos, seria a causa dos problemas hoje enfrentados por ele.

É através da fala que o paciente poderá ter acesso a algum evento recalcado que poderá ser a causa de seus sintomas atuais. Cada paciente em análise levará seu tempo para que o que está recalcado possa vir a nível consciente e assim poder elaborar o que, possivelmente, está trazendo seus sintomas que, embora muitas vezes se manifeste em seu corpo, de diferentes formas.

A paciente Elisabeth, uma histérica,  de certa forma deslocou Freud da posição de Mestre, quando pediu a ele que deixasse ela falar sem que fosse interrompida. Freud então vai dando lugar a palavra. 

A associação livre é uma forma de falar sem necessariamente ter alguma lógica, basta falar livremente, independente se faça ou não sentido. O que se espera que haja ali um novo discurso com aquilo que afeta o paciente, é um dizer que possa trazer surpresas em cena, porém é  um dizer que possa contornar um vazio, podendo trazer a verdade do paciente.

É como se fosse um quebra-cabeça onde poderá ir achando as peças para que ele possa se completar ou, pelo menos, chegar perto da sua completude. 

Segundo Freud:  “As situações que haviam ocasionado a formação do sintoma e as outras anteriores ao momento em que a doença irrompeu conservaram seu lugar como foco de interesse; mas o elemento da ab-reação retrocedeu para segundo plano e pareceu ser substituído pelo dispêndio de trabalho que o paciente tinha de fazer por ser obrigado a superar sua censura das associações livres, de acordo com a regra fundamental da psicanálise.”

3– Interpretação

A partir da descoberta da resistência, em 1914, Freud utiliza-se da interpretação como forma de identificar e tornar conscientes ao paciente as suas resistências. A partir do momento que o paciente passa a conhecer suas resistências que até então não tinha conhecimento das mesmas, ele pode trabalhá-la e vencê-las, podendo assim trazer sem dificuldades as associações que poderão ser a causa de seus sintomas.

Nas palavras de Freud: “Finalmente, desenvolveu-se a técnica sistemática hoje utilizada, na qual o analista abandona a tentativa de colocar em foco um momento ou problema específicos. Contenta-se em estudar tudo o que se ache presente, de momento, na superfície da mente do paciente, e emprega a arte da interpretação principalmente para identificar as resistências que lá aparecem, e torná-las conscientes ao paciente.”

Enfim gente, o objetivo do post foi apenas trazer aqui para você um pouco sobre as 3 fases iniciais do desenvolvimento da Psicanálise, lembrando que se trata do início.

Abaixo, um vídeo que está no Youtube de um documentário francês, do ano de 1997,  sobre a Invenção da Psicanálise, que lhe mostra um pouco da trajetória da mesma, fazendo uma relação com as diferentes momentos históricos.

 

Se você gosta do assunto, te convido a ver alguns outros posts por aqui e, se caso gostar, peço que compartilhem para que mais pessoas possam conhecer um pouco mais a respeito. Eu agradeço.

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Era isso por hoje.

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Um abraço.

 

 

 

Referências:

FREUD, S. O Caso Schreber, Artigos sobre Técnicas e Outros Trabalhos (1911-1913), Volume XII – da Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud.

http://repositorio.uniceub.br/bitstream/123456789/3033/2/20058677.pdf