Narcisismo. O mal dos nossos tempos?

Oi Gente

O objetivo desse post é apenas dividir com você um pouco sobre esse conceito, sem a pretenção de entrar profundamente em todos os aspectos que estão relacionados a ele. Mas, nem tudo que se escuta a respeito de pessoas narcísicas como críticas e os catalogando como se fossem pessoas “doentes” são tão simples assim. Saiba um pouco por aqui…

Narcissus, Father of the Selfie | da Lightcrafter Artistry

O termo narcisismo vem da cultura grega, significando o amor do individuo por si mesmo. Veja o mito sobre Narciso por aqui. É a partir desse mito que Freud parte para elaborar um conceito da origem do eu. O eu não vem pronto no nascimento do bebê.

Foi no ano de 1914 que o termo narcisismo entra para o discurso da psicanálise, através de Freud quando entende o narcisismo como um elemento constitutivo do amor-próprio e da autoestima com objetivo da autopreservação dos sujeito e formação dos laços sociais.

A formação psíquica do bebê se dá após o seu nascimento. Nesses primeiros momentos do ser humano, as suas pulsões se encontram soltas. Esse primeiro momento é chamado de autoerotismo.

O que é o autoerotismo?

Para que você possa entender melhor, vou tentar falar aqui de uma forma mais simples. Por exemplo, quando o bebê recém-nascido mama no seio da mãe, nesse momento ele não está somente se beneficiando da sua nutrição ou de sua necessidade biológica. Freud em 1905 no seu trabalho sobre “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” diz “quando vemos um bebê saciado deixar o seio e cair para trás adormecido, com um sorriso de satisfação nas faces rosadas, não podemos deixar que esta imagem é o protótipo da expressão da satisfação sexual na existência posterior”, ou seja, nesse momento o bebê não apenas se satisfaz do leite como parte nutricional, atendendo a sua necessidade biológica, mas ele também se satisfaz dessa relação afetiva, ou seja, o seio materno é o objeto da libido – “um objeto que é externo ao corpo”.

Para Freud, quando o bebê se afasta desse seio e começa a fantasiar, sugando seu polegar por exemplo, ele está exercendo o seu autoerotismo.

Assim, a importância da amamentação não se trata apenas da parte nutricional para o bebê, pois ao ser amamentado ele também procura satisfazer suas necessidades emocionais, no contato com a pele da mãe, ao ouvir sua voz, seu carinho e seu olhar.

Quando o bebê não é amamentado ao seio e sim com fórmula, também há a necessidade desse momento de troca de carinho com a mãe, ou com aquele que atende o seu bebê, pois nesse momento da amamentação há a possibilidade de uma troca afetiva, onde os dois possam trocar uma relação afetiva e sexual, pois nesse momento a mãe ou quem cuida do bebê também está nesse momento erotizando o corpo do bebê em desenvolvimento.

Segundo Freud, “os instintos sexuais estão, de início, ligados à satisfação dos instintos do ego; somente depois é que eles se tornam independentes destes, e mesmo então encontramos uma indicação dessa vinculação original no fato de que os primeiros objetos sexuais de uma criança são as pessoas que se preocupam com sua alimentação, cuidados e proteção; isto é, no primeiro caso, sua mãe ou quem quer que a substitua”. p. 94 Esse tipo é o que Freud chamou de anaclítico ou de ligação.

O corpo, para Freud, além da sua dimensão biológica é um corpo simbólico. Com assim, um corpo simbólico? Simbólico no sentido de que a imagem que cada um tem de si é construída na relação com os adultos que ocupam as funções de pais.

ZORMIG, comenta: “Este corpo é erotizado justamente por não ser apenas um pedaço de carne para os pais, mas sim, um corpo simbólico, investido de afeto e de palavras que vão
marcar o bebê e lhe dar um lugar fundamental na
estrutura familiar. Por este motivo, os bebês e as
crianças pequenas em sofrimento demonstram seu
mal-estar com sintomas físicos, através de um sintoma
no corpo – de um corpo que fala, antes do advento da
linguagem verbal.”

Freud questiona: “Qual a relação entre o narcisismo de que tratamos e o auto-erotismo, que descrevemos como um estado inicial da libido? (…) No tocante a essa questão, posso ressaltar que estamos destinados a supor que uma unidade comparável ao ego não pode existir no indivíduo desde o começo; o ego tem de ser desenvolvido. Os instintos auto-eróticos, contudo, ali se encontram desde o início, sendo, portanto, necessário que algo seja adicionado ao auto-erotismo – uma nova ação psíquica – a fim de provocar o narcisismo”. p. 84

Assim, quando Freud postula o Narcisismo Primário, em 1914, nos fala que é através desse investimento narcísico parental que possibilita antecipar um lugar do sujeito, no caso o bebê, mesmo antes de seu nascimento.

O Narcisismo Primário

De acordo com Ernest Jones, um neuropsiquiatra conhecido como o biógrafo oficial de Freud comentou que em “numa reunião da Sociedade Psicanalítica de Viena, em 10 de novembro de 1909, Freud já havia declarado que o narcisismo era uma fase intermediária necessária entre o auto-erotismo e o amor objetal”. p. 77

ARAUJO, escreve que: “Em 1910, Freud introduziu o termo narcisismo no discurso psicanalítico para se referir à escolha sexual dos invertidos, como eram chamados os homossexuais na época. Tratava-se, na verdade, de uma nota de rodapé acrescida naquele ano aos seus Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, na qual se encontra dito que eles “partem de uma base narcísica e procuram um rapaz que se pareça com eles próprios e a quem eles possam amar como eram amados por sua mãe” (FREUD, 1905/1972, p.145-146). Quase que no mesmo período, por ocasião dos ensaios sobre Leonardo da Vinci (1910/1970) e sobre Schereber (1911/1969), Freud dá-se conta de que o narcisismo é um estágio comum no desenvolvimento sexual humano. É em 1914, no entanto, que ele articula o conceito psicanalítico do narcisismo na esteira do desenvolvimento infantil e dos investimentos libidinais.

Para Freud, 1914, o eu possui uma natureza dupla, para que haja uma unificação do corpo é preciso do olhar do Outro que vai ser constitutivo do eu.

Nas palavras de Freud: “Dizemos que um ser humano tem originalmente dois objetos sexuais – ele próprio e a mulher que cuida dele – e ao fazê-lo estamos postulando a existência de um narcisismo primário em todos, o qual, em alguns casos, pode manifestar-se de forma dominante na sua escolha objetal”. p. 95

O Narcisismo é diferente do auto-erotismo, que se encontra presente desde o início. O Narcisismo ele tem que ser desenvolvido na criança. Para Freud o ser humano tem dois objetos sexuais – ele próprio e a pessoa que está cuidando dele quando bebê, o que leva a considerações de um narcisismo primário em todos, o qual, em alguns casos, pode manifestar-se de forma dominante em sua escolha objetal. Assim, todos nós passamos pela fase do narcisismo primário.

Nas palavras de Freud: “Dizemos que um ser humano tem originalmente dois objetos sexuais – ele próprio e a mulher que cuida dele – e ao fazê-lo estamos postulando a existência de um narcisismo primário em todos, o qual, em alguns casos, pode manifestar-se de forma dominante na sua escolha objetal”. p. 95

Assim, todos nós passamos pela fase do narcisismo primário.

O narcisismo primário é algo preparado pelo desejo e ideal dos pais, onde o pequeno sujeitinho vai ocupar um lugar. Vai ser investido através de um olhar idealizante dos pais. Assim, o narcisismo primário é uma herança do ideal narcísico dos pais. É como se o bebê viesse ocupar um lugar daquilo que ficou perdido na vida de seus pais. Caberá ao bebê, a essa criança recuperar para os seus pais aqueles privilégios que estes não puderam obter ou que foram obrigados a renunciar e esperam dessa criança que ela possa realizar os sonhos e projetos onde eles fracassaram. Freud chamou de “Sua Majestade, o bebê” a esse lugar no qual os pais costumam colocar seu filho.

Segundo Freud: “A criança terá mais divertimento que seus pais, ela não ficará sujeita às necessidades que eles reconheceram como supremas na vida. A doença, a morte, a renúncia ao prazer, restrições à sua vontade própria não a atingirão; as leis da natureza e da sociedade serão ab-rogadas em seu favor; ela será mais uma vez realmente o centro e o âmago da criação – Sua Majestade o Bebê – como outrora nós mesmos nos imaginávamos. A criança concretizará os sonhos dourados que os pais jamais realizaram – o menino se tornará um grande homem e um herói em lugar do pai, e a menina se casará com um príncipe como compensação para sua mãe. (…) O amor dos pais, tão comovedor e no fundo tão infantil, nada mais é senão o narcisismo dos pais renascido, o qual, transformado em amor objetal, inequivocamente revela sua natureza anterior”. p. 98

É comum observar comentários onde os pais colocam esses seus desejos frustrados nos seus filhos em palavras: por exemplo, “esse menino vai ser um dos melhores jogadores de futebol”; “a minha princesinha será uma grande bailarina” etc… .Esse eu do sujeito seria, na medida em que esse olhar dos pais é um olhar idealizante, proveniente de seu próprio narcisismo, um eu alienado e produto da ficção.” http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722006000200014

O narcisismo primário, no entanto, só se mantém com o amor dos pais e a depender do desejo dos pais, essa criança não experimentaria perdas e nem sofrimentos. Mas, nem sempre o sujeito poderá continuar nessa posição da sua Majestade o Bebê durante o seu desenvolvimento psíquico.

O narcisismo corresponde ao primeiro tempo do Complexo de Édipo, como explicado por Lacan no Estádio do Espelho.

Assim, como no mito de Narciso, o Narcisista é aquele que se mantém nesse Narcisismo primário, onde o Narcisista se relaciona com o outro mas busca no outro o eco dele próprio.

A questão da autoestima

Segundo Freud: “Em primeiro lugar, parece-nos que a auto-estima expressa o tamanho do ego; os vários elementos que irão determinar esse tamanho são aqui irrelevantes. Tudo o que uma pessoa possui ou realiza, todo remanescente do sentimento primitivo de onipotência que sua experiência tenha confirmado, ajuda-a a aumentar sua auto-estima (…) devemos reconhecer que a auto-estima depende intimamente da libido narcisista”. p. 104

Sobre a auto-estima, Freud cita ainda dois fatos fundamentais: “o de que, nos parafrênicos, a auto-estima aumenta, enquanto que nas neuroses de transferência ela se reduz; e o de que, nas relações amorosas, o fato de não ser amado reduz os sentimentos de auto-estima, enquanto que o de ser amado os aumenta. Como já tivemos ocasião de assinalar, a finalidade e satisfação em uma escolha objetal narcisista consiste em ser amado”. p. 104

Na psicanálise, o narcisismo diz respeito a imagem, identificação e investimento.

Na imagem seria uma forma como a pessoa se apresenta, como ele se vê em relação ao outro. Há uma certa dependência do olhar e aprovação do outro.

O apego a essa imagem, em alguns momentos pode ser prejudicial ao sujeito, uma vez que o impede de investir, pelo fato dessa identificação com sua imagem, pode lhe trazer prejuízos. Ter que manter a todo custo uma imagem idealizada não é fácil.

Na identificação, ele se apresenta com essa imagem, identificada com superioridade ou inferioridade. O sujeito faz de sua imagem como um cartão de apresentação.

No investimento, ele precisa sempre colocar algo na sustentação dessa imagem o que pode levar o sujeito a se manter alienado e não se abrir para outras possibilidades.

A pessoa pode também se relacionar tanto a imagem positiva do belo, quanto a imagem de deterioração. Nem sempre o narcisista apresenta um auto-estima elevada, as vezes, é algo também enganoso. Há na realidade um certo tipo de servidão nessa posição narcísica do sujeito.

Nos dias atuais muito se ouve falar sobre pessoas narcísicas. Será que podemos questionar que os pais estão transformando seus bebês em sua Majestade durante muito tempo, os mantendo em um estado de infantilidade?

A forma como a pessoa vivenciou o seu narcisismo poderá sim influenciar em outras fases de sua vida, podendo apresentar dificuldades de relacionamento e dificuldades em manter vínculos mais profundos e duradouros na sua fase adulta.

Observa-se, principalmente, nas redes sociais, cada vez mais, a divulgação de selfies como se a “criança” ali presente precisasse da aprovação e reconhecimento de um outro, como forma de reafirmar como no passado aquela fase do seu narcisismo primário.

Uma sociedade infantilizada, provavelmente, é uma sociedade mais fácil de ser manipulada pelos ditos de um capitalismo selvagem.

Ao precisar manter uma imagem que seja aprovada pelo outro, dentro de um padrão de beleza imposto pela sociedade, esse sujeito alienado na busca de uma perfeição dentro daquilo que a mídia determina como padrão de beleza, não está sendo mais uma vítima do sistema?

As vezes, essa resposta no comportamento de autoadmiração não estaria colocando a pessoa em uma situação de servidão?

O tempo que se gasta nesse investimento de sua imagem, o impossibilita de investir em outros projetos para seu amadurecimento e realização, como a possibilidade de fazer laços amorosos, bem como se dedicar a outros projetos para sua realização profissional.

É através de uma análise que o sujeito poderá trabalhar essas questões, pois o sujeito pode se agarrar nesse fascínio pela imagem como um mecanismo de defesa para não adentrar a outras questões que estão no avesso do que ele apresenta.

Enfim, é preciso um olhar mais cuidadoso para aquela pessoa que é “taxada” de narcisista, ela poderá sim estar em sofrimento e, até mesmo por não poder admitir falhas em sua imagem, não percebe que é uma das vítimas mais fragilizadas na atualidade.

Fica aqui, então, algumas questões para que possamos refletir.

Era isso por hoje.

Você é sempre bem vindo(a) por aqui.

Um abraço.

Referências:

FREUD, S. – Sobre o Narcisismo: Uma Introdução – A História do Movimento Psicanalítico, Artigos sobre a Metapsicologia e outros trabalhos – (1914-1916) – Ed. Standard Brasileira – Ed. Imago, Rio de Janeiro

ARAUJO, M. G – Considerações sobre o Narcisismo – http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-34372010000200011

ZORNIG, S. M. A. J. – As teorias sexuais infantis na atualidade: algumas reflexões – http://www.scielo.br/pdf/pe/v13n1/v13n1a08.pdf