Lacan e a teoria da fase do espelho

Oi gente

O objetivo do post é trazer de forma mais simplificada do que se trata essa teoria da fase do espelho. Saiba um pouco por aqui…

O bebê frente ao espelho

Se compararmos o nascimento do ser humano com os demais animais, pode-se dizer que os humanos nascem prematuramente. Quando um bebê nasce, se não receber todos os cuidados necessários para sua sobrevivência, com certeza morreria se fosse abandonado a própria sorte. Nenhuma criança nasce, andando ou falando. As suas funções motoras são parciais e, no nível biológico, dificilmente são completos.

Você já deve ter observado um bebê, provavelmente entre o período de 06 meses a 18 meses, frente a um espelho. É uma graça essa fase e parece que ele se assusta com a própria imagem, ele tenta pegar a sua imagem como se fosse um objeto, ele vai atras do espelho, estica a mãozinha. Mas, na verdade é nesse momento que pela primeira vez o bebê percebe algo diferente em relação a ele mesmo e que ainda não consegue entender bem o que é.

3 momentos da criança frente ao espelho

A criança, colocada em frente ao espelho, poderá provar determinadas experiências, poderá haver o primeiro momento, onde ao olhar para o espelho ela não o distingue como nós, ela simplesmente o vê como mais um objeto, ou seja,  como uma bola, uma boneca e qualquer outro objeto.

Em um segundo momento, a criança se vê no espelho, mas é possível que, naquele olhar, ela vai ter uma reação um pouco diferente, como se ali estivesse uma outra criança que não ela. Esse tempo é um tempo onde a criança vê um outro. Ela, nesse momento, se comporta igual a  um animalzinho, caso realizasse essa mesma experiência.  Não há um reconhecimento que ali é uma imagem dela, para ela é uma outra criança, como se fosse um duplo de si mesma.

Nesse momento a criança que se acha estar, também no lugar da outra, acaba pagando um preço por isso, ou seja, quando ela vê a outra criança passando por alguma situação de tombo por exemplo e chorar, ela mesmo sem ter caído chora junto. Se a outra criança quiser alguma coisa, ela também vai querer, pois ela está presa a essa imagem, fundamentalmente alienada fora dela mesma.

Para citar um exemplo: Você já deve ter visto uma criança acusando a outra de ter feito algo. Ela por exemplo bateu em alguém e fala que foi o amiguinho ao lado. Ela não está mentindo, ela ainda pode estar alienada na imagem do outro.

Se você colocar um animalzinho na frente do espelho, talvez ele tenha a mesma reação que seu bebê. Mas aí vem a diferença de nós humanos, nós temos a linguagem. 

Nesse terceiro momento, ela sorri e ela acaba se dirigindo para fora do espelho. É quando ela sai da frente do espelho, olha atrás do espelho e tira o olhar do espelho e olha para aquele que está nesse momento junto com ela. Ela olha para o olhar desse adulto. É nesse momento que ela busca nesse olhar do adulto um tipo de aprovação, ou seja, um olhar de reconhecimento.

É nesse momento que o bebê busca no Outro, provavelmente a mãe ou aquele que cuida da criança um certo tipo de aprovação, ou seja, uma confirmação através da fala de que aquela imagem é dele. “é você sim meu filho”, “olha que lindo que você é”, “olha o seu bracinho, sua perninha, seu corpo, sua cabeça”, são exemplos de fala que se vão comunicando ao bebê.

Até aqui, é como se o bebê não soubesse ainda que ele é um corpo separado de outro, e é se certificando disso com a linguagem, com a palavra, por exemplo: “sim é você que está aí e é um corpo separado do Outro”. É um momento em que o bebê ainda que estranhando essa visão percebe-se como um corpo unificado.

A criança busca algo fora do espelho e o que busca é esse olhar, e ali nesse momento que a criança começa a perceber que ela é algo separado, como se o corpo ali começasse a se fazer borda. É como se fosse uma marca para a criança, é nesse momento que ela tem a experiência de ter uma imagem.

Vale lembrar gente que esses momentos escritos acima, nem sempre são nessa sequência ok? Mas, provavelmente quem tem um bebê já presenciou esses momentos.

.Lacan e a sua teoria para essa fase do espelho

Até o ano de 1966, quando da primeira publicação da obra “Escritos”, o texto sobre o Estádio do Espelho só havia sido publicado em 1949, na Revue Française de Psychanalyse, n. 4., outubro-dezembro de 1949, nas páginas 449 a 455. (BONI, J. 2010),

Foi no ano de 1936 que a teoria do estádio do espelho foi criada por Lacan e apresentada pela primeira vez em 16/06/1936 em uma reunião da Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP) como cita  Boni Junior, em 2010, em sua tese de mestrado sobre esse conceito: “A primeira apresentação de Lacan sobre a concepção do estádio do espelho ocorreu numa reunião da Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP), em 16 de junho de 1936 e logo em seguida retornando a tal temática no XIV Congresso Internacional da International Psychoanalytical Association (IPA) em Marienbad, no mesmo ano. P. 17 Mas, seu trabalho foi interrompido pelo presidente da sessão, Ernest Jones, biógrafo de Freud.

Segundo Leader, 1995, o texto original deste artigo está perdido, mas o brilhante artigo sobre a família, que Lacan contribuiu para a Encyclopédie Française em 1938, juntamente com uma versão posterior do artigo, apresenta o argumento de maneira clara.

Lacan não entregou ou publicou o material destas apresentações. Contudo, em 2003, Gérard Guillerault publicou integramente as notas de Françoise Dolto sobre a leitura preliminar de Lacan na SPP.” p. 17.

.Como a criança chega a dominar sua relação com seu corpo?

A resposta de Lacan está na teoria da fase de espelho. Ele chama a atenção, em textos posteriores, para uma curiosidade etológica, conhecida como “mimetismo”.

Portanto, um graveto pode escolher ficar parecido com um graveto. A explicação óbvia para esse fenômeno é que ele protege a anima contra predadores. Mas o que muitos investigadores descobriram foi que aqueles animais que assumiam uma imagem ou disfarce eram tão propensos a serem comidos quanto aqueles que não tinham.

O governo dos EUA encomendou uma pesquisa no início dos anos 1930 envolvendo a tarefa bastante macabra de examinar os estômagos de cerca de 60.000 aves quase -ticas para confirmar esse diagnóstico contando os insetos que haviam sido engolidos. Os que se disfarçaram não eram menos frequentes que seus companheiros mais honestos.

Lacan Questiona:

Então, se a biologia evolutiva não pode fornecer uma resposta à questão do mimetismo com a idéia de proteção contra os predadores, como isso pode ser explicado?

Certos animais têm o hábito de assumir a insígnia e a cor do seu entorno. “Portanto, um bicho-pau pode parecer um pau. A explicação óbvia para esse fenômeno é que ele protege o animal contra predadores. Mas o que muitos investigadores descobriram foi que os animais que assumiam uma imagem ou disfarce eram tão propensos a serem comidos quanto aqueles que não tinham.” LEADER, p. 19

 Roger Caillois, um pensador francês fascinado com o tema das máscaras, dos jogos e da relação do humano com o reino animal, argumentou que havia uma espécie de lei natural pela qual os organismos eram capturados em seu ambiente. Assim, eles assumirão a coloração, por exemplo, do espaço ao redor deles. (por exemplo: uma borboleta que se assemelha na cor do tronco da arvore -“Essa semelhança pode se dar principalmente no padrão de coloração, textura, forma do corpo, comportamento e para todas as características químicas, e deve conferir ao mímico uma vantagem adaptativa”).

Lacan nos fala que não é através da biologia que se produz um eu. O eu para se estabelecer é através de uma relação. E no Estágio do Espelho que ele vai indicar uma experiência, uma experiência que poderá ser percebida. Lacan desenvolveu esta tese em seu trabalho sobre a fase do espelho, combinando-a com observações da psicologia infantil e da teoria social e defendeu uma forma semelhante de captura imaginária para o organismo em uma imagem externa.

Capturado em uma Imagem

“A criança se identifica com uma imagem fora de si, seja uma imagem real ou simplesmente a imagem de outra criança. A aparente perfeição dessa imagem lhe dá um novo domínio sobre o corpo.”p. 21

Segundo Larder, 1995, no artigo de enciclopédia de 1938, essa idéia é usada para dar uma explicação brilhante das oscilações inexplicáveis ​​no comportamento da criança de uma atitude tirânica ou sedutora.

Em vez de vinculá-lo a um conflito entre dois indivíduos, a criança e o espectador neste caso, Lacan argumenta que deriva de um conflito interno a cada um deles, resultante de uma identificação com a outra parte. Este é um princípio organizador de desenvolvimento, em vez de um único momento na infância. Se eu me identifiquei com uma imagem fora de mim, posso fazer coisas que não fiz antes.

A criança se identifica com uma imagem fora de si mesma, seja uma imagem espelhada ou simplesmente a imagem de outra criança. O domínio de nossas funções e uma entrada no espaço e movimento do mundo humano é, portanto, ao preço de uma alienação fundamental. Lacan chama o registro no qual essa identificação ocorre “o imaginário”, enfatizando a importância do campo visual e a relação especular subjacente à captação da criança na imagem.”Leader, 1995, p. 21

Enfim, o que é preciso pensar nessa fase do espelho é a importância do olhar dos pais, principalmente, para esse bebê que está chegando ao mundo da linguagem e iniciando a sua constituição do eu. O sujeitinho vai se enxergar na sua totalidade dependente de como ele foi olhado pelos pais.

Então a criança que não enxerga não faria esse processo? O espelho não se trata somente do espelho objeto, mas sim o reconhecimento que é dado fora do espelho, com o acolhimento dos pais, da fala dos pais. Tem que ocorrer algo que venha de fora, podendo ser os pais ou quem cuida do bebê. O mais importante é a linguagem, porque esse sim de aprovação que a criança precisa vem da linguagem e é isso que sustenta essa fase para a constituição do bebê.  Isso que acontece na experiência na infância o sujeito vai levar para o resto da vida. 

Enfim, essa experiência do espelho, não é somente o espelho enquanto objeto de refletir uma imagem, o espelho será na vida da pessoa muitas outras coisas, é tudo aquilo que fará com que você reconheça a sua imagem, como uma pessoa  que te distingue do outro.  O olhar do outro, o grupo, ou tudo o que possa devolver a você a sua imagem, pode ser considerado o espelho.

Era isso por hoje.

Obrigada por sua visita. Você é sempre bem vindo(a) por aqui.

Um abraço.



Referências:

– BONI, J. J. DE O, . –  O estádio do espelho de Jacques Lacan: gênese e teoria / Jonas de Oliveira Boni Júnior; orientador Christian Ingo Lenz Dunker. — São Paulo, 2010. 215 f. Dissertação (Mestrado – Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Área de Concentração: Psicologia Clínica) – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

 LEADER D. & GROVES, J. - Introducing Lacan - A graphic guide - 2010-London