A gripe espanhola no Brasil e a superação dessa fase

Oi Gente

Estamos passando por um momento em nossa história que, provavelmente, nunca tínhamos presenciado algo parecido, nessa proporção que estamos visualizando através dos noticiários, em tempo real.

Dormimos e acordamos como se estivéssemos saindo de um pesadelo e, até mesmo valendo a pergunta: Será que isso é verdade? Mas, infelizmente, passado alguns minutos e caímos na realidade de que sim, estamos vivendo e teremos que passar por mais um desafio nas histórias de vida de cada um de nós.

O post de hoje se refere a uma tentativa de buscar, em algumas publicações da história, como foi esse período dessa pandemia, onde ocorreram milhares de mortes. Vale lembrar, que essa pandemia ocorreu em uma época em que os recursos eram mínimos, onde nem os antibióticos ainda existiam.

Quero tentar dividir aqui com você, ainda, como foi sua manifestação e os reflexos dessa tragédia aqui no Brasil.

Em 1918, gripe espanhola espalhou morte e pânico e gerou a semente do SUS
Via Pinterest

Apesar de não ser a primeira das grandes pandemias vivida na história do mundo, pois já havia tido entre os anos de 1347 a 1351, a conhecida pandemia de nome Peste Negra que, também, deixou milhares de mortos por toda a Europa, a gripe espanhola, sem dúvida, apavorou diversos países pela sua rápida transmissão.

Como a peste negra está bem mais longe do nosso ano de 2020 e, com a chegada do Coronavirus, resolvi pesquisar a Gripe Espanhola, que fez parte de uma das maiores pandemias do século XX, ocorrida no ano de 1918, iniciando-se na Europa e se espalhando por vários países do mundo, inclusive o nosso Brasil.

Por que o nome “gripe espanhola”?

A gripe conhecida como espanhola recebeu vários nomes: gripe pneumônica, peste pneumônica e, ainda, la dansarina.

O nome gripe espanhola, pelo que andei pesquisando, foi devido ao fato da Espanha, nesse momento de final da primeira guerra que se deu no período entre 1914-1918, ser o país que mais tinha a liberdade de imprensa para comentar e divulgar informações sobre essa pandemia, considerada a mais severa da história da humanidade.

Onde começou a gripe espanhola?

Onde realmente começou não se sabe ao certo, mas o primeiro caso a ser observado foi nos Estados Unidos, no Texas e uma semana depois em Nova Iorque, no mês de março de 1918.

Coronavírus: O que pode se aprender com a gripe espanhola, pandemia que matou milhões há 100 anos - 11/03/2020 - UOL Notícias

A gripe espanhola chegou à Europa no mês de abril, “atingindo os exércitos aliados franceses, britânicos e norte-americanos. Em maio foi a vez da  Grécia,  Espanha e   Portugal, em junho, da Dinamarca e da  Noruega, e em agosto da Holanda e da  Suécia. Nesse último mês, encerrou-se a primeira onda da gripe, que, embora extremamente contagiosa, foi considerada mais benigna do que as seguintes por ter causado relativamente poucas mortes.” https://atlas.fgv.br/verbetes/gripe-espanhola

Em seguida, outras ondas da gripe foram surgindo e, para se ter uma idéia do nível dessa tragédia , a primeira guerra mundial deixaram em torno de 15 milhões de mortos, durante quatro anos de guerra enquanto a gripe espanhola matou 50 milhões no ano de 1918.

Uncovering a World War I veteran's story provided a genealogist and pharmacologist with some clues

Uma das características dessa gripe que chamou a atenção, de alguns estudiosos do assunto, foi o número de mortes entre pessoas mais jovens, entre 20 e 40 anos, muitos deles soldados. “A busca para entender a gripe de 1918 alimentou muitos avanços científicos, incluindo a descoberta do vírus influenza. No entanto, o próprio vírus não causou a maioria das mortes. Em vez disso, uma fração dos indivíduos infectados pelo vírus era suscetível a pneumonia devido à infecção secundária por bactérias. Em uma época anterior aos antibióticos, a pneumonia poderia ser fatal.” Por aqui, li a respeito das possíveis hipóteses para essa mortalidade entre jovens.

Qual o vírus causador da Gripe Espanhola?

Nesse site aqui, eles comentam: “O vírus por trás da pandemia é um velho conhecido nosso: o influenza H1N1. Antes de você me questionar se ele aprontou de novo ou vai voltar a aprontar, permita-me descrever um pouquinho o vírus e essa sigla embutida no nome dele. As letras e os números do H1N1 se referem a proteínas na superfície viral, as hemaglutininas e as neuroaminidases.”

A gripe espanhola no Brasil

Quando a gripe espanhola estava acontecendo fora do país, as notícias lidas nos jornais, inicialmente não assustavam a população brasileira, pelo fato de estar muito distante daqui. Porém, em setembro de 1918, ela chega ao Brasil. “a gripe penetrou no país a partir de setembro de 1918, quando a divisão naval enviada pelo Brasil a Dacar, para participar do patrulhamento do Atlântico Sul como parte do esforço de guerra do país ao lado dos Aliados, retornou. Nesse momento inicial, morreram mais de uma centena de marinheiros – o que correspondia ao número de brasileiros mortos em decorrência da participação na Primeira Guerra Mundial.

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Os navios, que aportaram no Recife e Salvador, trouxeram com eles a gripe para o nosso país e, aos poucos, foi disseminando por várias cidades, atingindo Rio e São Paulo com maior agressividade. Porém, até mesmo o Estado do Amazonas não foi poupado.

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A gripe se espalha pelo país, atingindo todas as classes sociais, dos mais humildes trabalhadores até a alta sociedade.

Os sintomas causados pelo H1N1, no ano de 1918, não era os mesmos de uma gripe comum. “As pessoas sangravam pelo nariz, pelos ouvidos, pelos olhos… Ficavam azuis com a falta de oxigênio, segundo relatos da época. Caíam de cama pela manhã e à tarde estavam mortas.” As células do pulmão eram as mais afetadas.

No ano de 1918, não havia tratamento antivirais e, talvez, ainda hoje não haja. Pode-se dizer que temos sim, além de alguns tratamentos para aliviar os sintomas, as vacinas que ajudam a apresentar menores complicações, quando elas aparecem.

No Brasil foram registradas mais de 35.000 mortes por essa terrível pandemia.

Como era de se esperar, os centros maiores sofreram mais com a gripe espanhola. Os centros urbanos eram esvaziados, pelo medo do contágio e sem condições de lidar com a situação. Era pedido para se evitar aglomerações.

Rio de Janeiro

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No Rio de Janeiro, foi onde ocorreu o maior número de óbitos. O Rio, nessa época, era o maior centro urbano do país e contabilizou, em apenas dois meses, 12.700 mortes. O momento mais crítico aconteceu no mês de outubro “O momento crítico deu-se em meados de outubro, quando a Diretoria Geral de Saúde Pública, através de seu titular Carlos Seide, admitiu a impossibilidade de a gripe ser controlada. A cidade estava parada, colégios, quartéis e fábricas interromperam suas atividades. Havia falta de alimentos, de remédios, de leitos e até de caixões.”

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Wenceslau Braz – Presidente do Brasil

O presidente do Brasil era Wenceslau, (1914-1918) e quem comandou o combate à gripe espanhola foi o médico sanitarista Carlos Chagas, o qual implantou 27 pontos de atendimento à população na capital federal. Vale lembrar que, nesse período, a capital do Brasil era o Rio de Janeiro. (A primeira capital foi Salvador, no Rio a partir de 1793 e Brasília, a partir de 21 de abril 1960). http://www.ebc.com.br/infantil/voce-sabia/2014/07/brasilia-e-a-terceira-capital-do-brasil

No Rio de Janeiro a gripe chega a bordo de um navio, Demerara, no dia 14 de setembro, trazendo a bordo vários doentes. Encontrei um trabalho que fala detalhes sobre a gripe espanhola no Rio de Janeiro. Veja por aqui.

São Paulo

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Gripe espanhola em São Paulo – https://memoriasaude.org.br/2018/11/gripe-espanhola-em-sao-paulo-1918/

Em São Paulo, na época, com uma população em torno de 470 mil habitantes, em apenas 3 meses, de outubro a dezembro, foram registradas 5.328 mortes. Em Salvador, na Bahia, foi a capital que registrou o menor número de mortes, num total de 386 pessoas.

A gripe espanhola chega à São Paulo capital em 09 de outubro de 1918, trazida através de um time de futebol que veio do Rio de Janeiro.

As notícias sobre a gripe, bem como as orientações eram feitas através dos jornais:

CONSELHOS AO POVO
Evitar aglomerações, principalmente à noite.
Não fazer visitas.
Tomar cuidados higiênicos com o nariz e a garganta: inalações de vaselina mentolada, gargarejos com água e sal, com água iodada, com ácido cítrico, tanino e infusões contendo tanino, como folhas de goiabeira e outras.
Tomar, como preventivo, internamente, qualquer sal de quinino nas doses de 25 a 50 centigramas por dia, e de preferência no momento das refeições.
Evitar toda a fadiga ou excesso físico.
O doente, aos primeiros sintomas, deve ir para a cama, pois o repouso auxilia a cura e afasta as complicações e contágio. Não deve receber, absolutamente, nenhuma visita.
Evitar as causas de resfriamento, é de necessidade tanto para os sãos, como para os doentes e os convalescentes. Às pessoas idosas devem aplicar-se com mais rigor ainda todos
esses cuidados (O Estado de S. Paulo, 21/10/1918).” Saiba mais por aqui sobre a gripe em São Paulo.

São Paulo já parou antes: gripe espanhola teve saques e cemitério ...
Hospital do Clube Atlético Paulistano via: https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/14/presidente-doente-mortos-insepultos-como-foi-a-gripe-espanhola-no-brasil.htm

No Brasil, embora a gripe espanhola tenha atingido todas as classes sociais, levando a morte até mesmo o próximo presidente, já eleito, Rodrigues Alves, o qual tomaria posse em 15 de novembro de 1918, mas nem sequer conseguiu, vindo a óbito em janeiro de 1919, a maioria de suas vítimas estava nas camadas da sociedade menos favorecida.

Reflexos Econômicos da Pandemia no Brasil

O Brasil tinha como base da sua economia a agricultura, onde o produto carro chefe era o café, que correspondia a mais de 50% das exportações, seguidas pelo cacau, algodão, açúcar e borracha que serviam de matéria-prima nas operações de guerra.

Crise acaba com era de ouro do café no Brasil - Jornal do Comércio
https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/economia/2019/10/709138-crise-acaba-com-era-de-ouro-do-cafe-no-brasil.html

Após um momento crítico enfrentado no Brasil, além do grande número de mortes registradas, chegou o momento em que a gripe se foi e deixou os seus sintomas na economia do país.

O Brasil de 1919

Um pouco sobre o que era o Brasil nesse ano de 1919 para que possamos pensar em que momento o país foi obrigado a se reerguer depois da gripe espanhola.

A população do Brasil não chegava a 30 milhões e grande parte de sua população ainda se encontrava no Campo. O Estado de Minas Gerais era onde se encontrava o maior número de brasileiros, com 5,7 milhões.

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Delfim Moreira

Com a morte de Rodrigues Alves, ainda em 1918, o seu vice Delfim Moreira foi quem assumiu a Presidência, porém por pouco tempo, pois também morreu no ano de 1919. Após as eleições, assumiu Epitácio Pessoa. (191-1922).

O dinheiro era o reis, moeda que vigorou até 1942, sendo substituída pelo cruzeiro, no Governo de Getúlio Vargas. Não havia televisão e o rádio só chegaria em 1922. Assim, o meio de comunicação eram os jornais.

O Brasil não tinha ainda um Banco Central, “capaz de controlar a emissão de moeda, o crédito e a taxa de juros. O padrão-ouro ainda predominava na economia.” A economia dependia praticamente do café, vale lembrar que o Brasil era um país agrário, o analfabetismo atingia 70% da população, somente homens acima de 21 anos podiam votar e, ainda, a votação não era secreta. Predominava no Brasil a política café-com-leite. Havia “alta carga tributária, máquina-pública inchada e ineficiente”. https://especiais.gazetadopovo.com.br/100-anos/brasil-diferenca-similaridade-1919-2019/

Com os países europeus tendo que se reerguer depois do final da primeira guerra, os produtos importados diminuíram por aqui. Era preciso incentivar a nossa industrialização para que pudesse atender ao mercado nacional.

Houve um avanço na industrialização, onde as pequenas fábricas e oficinas começaram a produzir produtos texteis, maquinários e equipamentos.

O sistema de saúde do Brasil foi repensado, dando origem ao início a uma reflexão sobre a necessidade de um sistema único de saúde no país, podendo pensar que foi a partir daí que foi a sementinha inicial do que conhecemos hoje como SUS.

As epidemias na história chegam sem pedir licença e o que sabemos que elas também se vão. Saber lidar com essas situações imprevisíveis nunca foi fácil e entre erros e acertos sempre nos deixam várias lições.

Infelizmente, é através do sofrimento e, algumas vezes, das perdas de muitas pessoas na história que a sociedade vai tentando se organizar, com erros e acertos. Afinal ninguém tem um manual correto e pronto para lidar com os imprevistos.

O Carnaval, a peste e a 'espanhola'

“Enfim terminado o filme de terror, os cariocas usam o Carnaval de 1919 como forma de exorcizar o fantasma da gripe espanhola. O Rio assiste, nos bailes e nos blocos de rua, àquela que talvez seja a folia mais desenfreada de que se tem notícia na cidade. Das marchinhas aos carros alegóricos, o tema da festa é um só: o “chá da meia-noite” — que não bota medo em mais ninguém”.
O Carnaval, talvez, foi uma forma de poder sublimar tanto sofrimento naquele ano. É a melhor forma? Quem sou eu para dizer, mas talvez seja a possibilidade encontrada por um povo tão sofrido em buscar na diversão, alegria e críticas ao sistema, uma forma de expor aquilo que nem sempre é possível individualmente e, assim, recarregar suas forças para continuar.

Pesquisando por aqui e lendo sobre essas idas e vindas da nossa história, chego a triste conclusão que somos seres mortais e, enquanto vivos e seres sociais que somos, só temos a opção de cada um dar a sua melhor contribuição dentro de sua ética, e torcer para que nossos governantes saibam e tenham o discernimento para conduzir seu povo, de uma forma que, apesar do preço que cada um tenha que pagar nessas situações, que possam ter um mínimo de respeito ao sofrimento humano passando credibilidade em suas ações. Assim, só temos a opção de continuar acreditando que passaremos por mais esse desafio, da pandemia coronavírus, deixando o mínimo possível de sequelas na sociedade já tão sofrida em nosso país.

Enfim, se o Brasil com menos recursos em outras épocas já enfrentou outras epidemias e foi capaz de continuar, só posso crer que vamos sair dessa, com a união, criatividade e solidariedade do nosso querido povo brasileiro.

Era isso por hoje.

Obrigada pela sua visita. Você sempre é bem vindo(a) por aqui.

Um abraço.

Referencias:

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/16/internacional/1516096077_476907.html

https://www.scielosp.org/article/csp/2005.v21n5/1614-1616/

https://atlas.fgv.br/verbetes/gripe-espanhola

https://saomateusnews.com.br/politica/moeda-diferente-transporte-maritimo-mulheres-nao-votavam-como-era-o-brasil-em-1919/

Arruda, J. J. A. – História Moderna e Contemporânea, 12 edição, Ed. Ática, São Paulo, 1980.