4 médicos pioneiros na história da saúde mental

Oi Gente

O objetivo do post de hoje é dividir com você um pouco sobre a história dos primeiros tratamentos “mais humanizados” que utilizavam com os pacientes que apresentavam problemas na área da saúde mental.  Você poderá saber quem foram os 4 médicos pioneiros a se preocuparem com a questão dos doentes que eram simplesmente afastados do convívio da sociedade.

                             Tony Robert-Fleury: Citizen Pinel Orders Removal of the Chains of the Mad at the Salpêtriére

O post traz quem são eles, resumidamente, e algumas de suas contribuições em suas épocas. Se hoje, ainda, encontramos muitos desafios a serem vencidos nessa área, infelizmente, já tivemos alguns momentos piores…

 

De acordo com os registros históricos sobre tratamentos nessa área da “saúde mental”, os mesmos nos  demonstram quantos fatos e tratamentos que levaram, injustamente, pessoas a tratamentos sem um final feliz, além de formas inumanas aplicadas durante o percurso dessa trajetória de buscar um resultado para melhorar as condições de pessoas que passavam por momentos que, de acordo com a sociedade, não entravam dentro do conceito que se considerava “normal”. 

Esses assuntos já foram abordados, inclusive, através de documentários, livros  e filmes por exemplo, demonstrando algumas atrocidades cometidas com esses tipos de pessoas que apresentavam atitudes, comportamentos e falas diferentes daqueles que a sociedade declarava, em cada época, como sendo “normais”.  (…) “ao julgá-las nefastas ou possuídas pelo demônio, a voz corrente as condenava a torturas e à morte, na fogueira ou por afogamento, tratamento reservado aos “feiticeiros”e “bruxos”. Quando isso não acontecia, esses indivíduos ou eram tachados de moralmente deficientes e perniciosos à sociedade por suas transgressões ou eram considerados um estorvo irremediável que precisava ser afastado das pessoas de bem”. p. 410

Uma boa parte desse tipo de indivíduo simplesmente eram trancados ou acorrentados a uma parede para sempre, até porque o que estava fora do olhar da sociedade, simplesmente não lhes dizia respeito. Ou seja “o que o olhos não veem, o coração não sente”. 

Na idade média de 476 a 1453

Foram quase 1000 anos compreendidos nesse período, mas já havia também pessoas que se preocupavam com essa questão e que buscavam tratamentos mais humanizados, cabendo àquele que tinha um status socioeconômico melhor (como sempre), tratamento já diferenciado daqueles mais pobres, onde as comunidades eram maiores, levando-os a receberem piores tratamentos. (acho que não evoluímos muito quanto a esse critério, infelizmente).

Período do Iluminismo – 1715 a 1789

No final do século XVIII e início do XIX, já observa-se algumas tentativas de melhoras nos tratamentos desses individuos, chamados na época como doentes mentais. (…) “o que marcou o pensamento iluminista foi a crença nas ideias de progresso e reforma e a fé na capacidade da ciência de melhorar a sociedade.” Foi nessa época que as doenças “mentais” começaram a ser vistas como sendo de ordem natural e de origem biológica e, sendo assim, sendo possíveis tratá-las. Mas será que eram e/ou são somente de origem biológica?

Abaixo alguns nomes dos pioneiros nessa área que, pelo menos, tiveram a iniciativa de olhar para esses indivíduos de uma forma diferente daquelas apresentadas até então.

 Fillipe Pinel – França (1745-1826)

Fillipe Pinel – desenhado pelo artista Francês – Julien-Léopold Boilly

O médico Fillipe Pinel foi quem instituiu algumas reformas humanistas nessa área, primeiramente no hospício de Bicêtre (masculino), no ano de 1793, e dois anos depois, 1795, no de Salpêtrière (feminino), em Paris, na França.

Uma das primeiras providências de Pinel foi liberar os pacientes das famosas correntes, as quais alguns estavam presos há mais de anos. Em torno de 15% dos pacientes faziam parte desse grupo que se mantinham acorrentados dentro desses hospícios. Também pertence a ele a criação do chamado “tratamento moral” no qual envolvia melhorias para o paciente na parte nutricional, higiene e condições melhores de um modo geral, com a criação de mudanças de comportamento através de recompensas e punições, um método considerado inovador para a época.

Willian Tuke – Inglaterra (1732-1822)

Willian Tuke, um comerciante de chá, na Inglaterra, foi quem se interessou na Inglaterra para ajudar os desvalidos, foi lider do movimento antiescravagista e também se dedicou àqueles que apresentavam doenças mentais.

No ano de 1792, ele fundou a York Retreat, situado no Norte da Inglaterra, como forma de oferecer um tratamento mais humanizado. A York Retreat estava situada no campo, em um ambiente rural, como forma dos pacientes se sentirem mais em uma fazenda do que em uma prisão. Assim como Pinel, utilizava algumas regras com os pacientes, ou seja, aqueles que se comportavam melhor tinham mais liberdade e oportunidades de trabalho e recreação e os demais recebiam punições de acordo com o comportamento, sendo muitas vezes separados dos demais pacientes e até mesmo serem amarrados em alguma cama.

York Retreat

O modelo de York Retreat tornaria um modelo a ser copiado por outros países, principalmente os Estados Unidos. “(…) o retiro de Tuke em York tornou-se um modelo para pelo menos metade dos hospitais-hospício privados criados nos Estados Unidos nos primeiros 25 anos do século XIX.” p. 412

Benjamin Rush – Estados Unidos (1745-1813)

Benjamin Rush é considerado o primeiro médico a abordar o tratamento da doença mental cientificamente.  “Um dos poucos médicos da época que de fato tinham formação universitária em medicina. Foi diretor de saúde pública dos confederados da Revolução Americana e também foi um dos que assinaram a declaração da independência. É considerado também o “pai”da moderna psiquiatria.

Rush acreditava que muitas doenças eram decorrentes de problemas no sangue. Diante dessa crença, entendia que se removesse o sangue doente ou o excessivo poderia estar aí o remédio para a solução da saúde do paciente. Assim, Rush promovia a sangria. 

Como era a técnica da sangria?

A sangria uma técnica que foi utilizada durante muito tempo como forma de acalmar os pacientes, por entender que as doenças mentais era atribuída à “hipertensão nos vasos sanguíneos do cérebro”.

“Para reduzir a tensão, portanto, era preciso abrir veias e eliminar uma parte do sangue até que o doente ficasse mais tranquilo. A técnica costumava funcionar para acalmar temporariamente os pacientes mais violentos, provavelmente porque, com menos alguns litros de sangue, esses infelizes ficavam fracos demais. Rush relata o caso de um paciente violento ao qual foram aplicadas 47 sangrias, totalizando a perda acumulada de entre onze e quatorze litros de sangue. Esse paciente por fim teve alta, voltou ao convívio da comunidade e escreveu um testemunho elogiosíssimo no qual agradecia a Rush pela terapia, mas pouco depois sofreu uma recaída e enforcou-se. “. p. 412

Girador e tranquilizador – 2 instrumentos criados por Rush

Rush criou ainda dois dispositivos, como forma de acalmar a circulação sanguínea: o girador e o tranquilizador.  No girador o paciente se deitava sobre uma prancha giratória com o objetivo de que o sangue fosse redistribuído para a cabeça. Assim, o paciente era girado rapidamente para conseguir o resultado esperado.

O tranquilizador se referia a uma cadeira onde o paciente se sentava e suas pernas e braços eram amarrados com fitas e se colocava uma espécie de caixa sobre a cabeça do doente, como forma de mantê-lo imobilizado. Acreditava-se que estando imobilizado era possível reduzir a pulsação. A foto abaixo é para você ter uma ideia do que era o tranquilizador. 

Esses tipos de tratamentos, utilizando-se desses aparelhos foram se tornando um padrão pelos hospícios e refletiam um avanço, na época, por entender que com esses métodos era possível haver alguma melhora do paciente. 

Jean Itard – francês – 1775-1838

Jean Itard teve como seu principal ofício ser professor de surdos. Como contemporâneo de Pinel também se interessou no que era chamado de deficiência mental ao invés de doença mental. 

Itard ficou famoso por tentar domesticar um jovem conhecido na história, de 12 anos com o nome de Victor, mais conhecido como “garoto selvagem de Aveyron”. Tratava-se de um garoto que havia sido abandonado pelos pais em um floresta o qual foi encontrado no ano de 1799. O garoto até então tinha sobrevivido, porém não fazia uso da linguagem falada. Pinel, após alguns exames, o considerou um “idiota incurável”. Foi então que Itard resolveu cuidar do caso por considerar que mesmo os mais retardados poderiam melhorar através de treinamento com bases científicas.

Após dois anos, tentando socializá-lo e ensiná-lo a falar e apegado ao garoto, Itard conseguiu que o mesmo realizasse tarefas simples, porém sem as condições necessárias para se cuidar sozinho. Quanto a linguagem, Victor nunca conseguiu usar a lingua de uma maneira produtiva.  Itard escreve um livro relatando esse caso “The Wild Boy of Aveyron”. 

Após Itard não ter julgado o caso de Victor como encorajador, foi seu assistente Edouard Seguin (1812-1880) que continuou a trabalhar com o garoto e, embora não tivesse conseguido muitos avanços, o seu trabalho levou-o a pensar que pelo menos o garoto estava tendo uma vida melhor do que anteriormente parecendo mais feliz. 

Seguin, após os cuidados com Victor, se dedicou o resto de sua vida aos cuidados e treinamentos dos chamados “retardados mentais”, o que o colocou como um dos pioneiros dessa área. “Algumas de suas técnicas, principalmente a que se dizem à manipulação de objetos de formas diferentes, foram posteriormente adotadas por Maria Montessori quando criou seus métodos de treinamento educacional”. p. 413.

Enfim gente, esses foram os 4 médicos pioneiros na história da saúde mental. Foram eles, com acertos e erros, que começaram a ter um olhar mais humanizado para os pacientes que, simplesmente, eram afastados do convívio da sociedade por serem considerados fora dos padrões ditos de “normais”.

 

Era isso por hoje.

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Um abraço.

 

 

 

Referências:

Imagens disponíveis no Google

GOODWIN. C. J. – História da Psicologia Moderna; tradução Marta Rosas – 4 edição – Ed. Cultrix – São Paulo, 2010.