A primeira e única viagem de Freud a América

Oi Gente

Estou lendo um livro da Elisabeth Roudinesco, historiadora,  psicanalista francesa e intelectual que escreve ao jornal Le Monde regularmente, cujo o título é:  Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo, da editora Zahar.

Estou gostando muito da leitura e,  nessa parte onde ela nos conta sobre a primeira vez que Freud foi para a América, o que me chamou a atenção foi a riqueza dos detalhes e resolvi fazer um post aqui para dividir, um pouco dessa história, com você. 

Era o ano de 1909, quando Freud foi convidado pela Clark University, através do psicólogo Granville Stanley Hall (o primeiro psicólogo a receber um título de PhD nos Estados Unidos e, ainda o primeiro presidente da APA (American Phychological Association), naquele país. Essa viagem foi a primeira e a única que Freud fez aos Estados Unidos. Esse convite se deu em razão da comemoração dos 20 anos da Clark University.

Nos EUA, haviam duas correntes que divergiam sobre as abordagens das doenças da alma: “os somáticos, de um lado, que atribuíam a origem dos distúrbios psíquicos a um substrato neurológico, ao mesmo tempo em que preconizavam um education treatment; e, do outro, os psicoterapeutas, que, embora criticando os excessos do somatismo, buscavam legitimidade, recusando-se a ser comparados a curandeiros”. ROUDINESCO, 2016,p. 175).

 

Clark University em 1909

Os principais estudiosos das doenças da alma americanos (Morton Prince, William James, James Jackson Putmam, Stanley Hall, Morton Prince) já conheciam as teses europeias com respeito a esse assunto.

Acompanharam Freud nessa viagem, Jung (“em virtude da distência de Ernst Meumann”), Ferenczi (colaborador de Freud e fundador da IPA – International Psychonalytical Association) e Jones (“Os três homens se encontraram em 20 de agosto de 1909 em Bremen, na véspera do embarque, e almoçaram alegremente num excelente restaurante. Incentivado por Freud e Ferenczi, Jung decidiu quebrar seu juramento de abstinência e tomou vinho pela primeira vez em nove anos”. p. 178

Freud que gostava de viajar estava encantado com a possibilidade de conhecer a América, além de que o mesmo “sonhara com a América e eis que aquela América, por meio daquele prestigioso convite, lhe augurava que a psicanálise logo sairia, e definitivamente, do”meio ambiente vienense”. p. 180.

Em 29 de agosto, no período noturno, em Nova Jersey, no porto de Hoboken eis que Freud avista a famosa estátua da liberdade com suas luzes. “Voltou-se então para Jung e pronunciou estas palavras: “Se eles soubessem o que estamos lhes trazendo..”Em janeiro, escrevera a Firenczi: “Lá, tão logo eles deparem com os fundamentos sexuais de nossa psicologia, seremos prontamente incluídos no índex”. p. 180

Após serem recebidos por Brill e Bronislaw Onuf, que era o médico chefe do Hospital de Ellis Island, foram levados para o hotel Manhattan. Durante 5 dias seguintes, lhes mostraram Nova York e seus principais pontos turísticos. “Freud foi pela primeira vez a uma sessão de cinematógrafo, andou de taxi (…) contou a Martha, sua esposa, os seus passeios a diferentes restaurantes, falando do sabor do café, das frutas, e de tudo de novo que se via por lá, habituando-se a frequentar “um novo povo urbano, o do melting-pot americano: negros, asiáticos, brancos, judeus, mestiços”. p. 181

Stanley Hall – 1844-1924

Foram recebidos na casa de Stanley Hall para um jantar e em 07 de setembro, “após conversar longamente com Ferenczi sobre o que iria dizer, Freud deu início à série de cinco conferências que faria perante um público de cientistas ilustres (…) fez, sem ler qualquer anotação, uma brilhante apresentação de seus trabalhos clínicos e teóricos (…) expôs seu método de interpretação dos sonhos, sua concepção do recalcamento, sua técnica da terapia e sua visão da histeria. Por fim, abordou destemidamente a questão da sexualidade infantil, evocando o caso do “Pequeno Hans”e estabelecendo um paralelo com a exposição de Jung sobre o “caso Ana”. p. 183.

Lembrando que nesse momento das conferencias nos EUA Freud ainda não “haviam aflorado as noções de narcisismo, metapsicologia, tópicas complicadas ou pulsão de morte”. p. 184

 As cinco conferências proferidas por Freud foram bem acolhidas pela imprensa local e nacional. Para Freud esse momento da sua viagem aos EUA era o fim do seu isolamento. Roudinesco coloca aqui nesse trecho a intuição de Freud sobre esse fato: “Na época eu tinha apenas 53 anos, sentia-me jovial e saudável, a breve estadia no Novo Mundo fez muito bem à minha auto-estima. Na Europa, eu me sentia um desterrado, nos Estados Unidos me vi acolhido pelos melhores como um igual. Quando subi à cátedra em Worcester para proferir as minhas ‘Cinco lições de psicanálise’, foi como a realização de um sonho improvável. A psicanálise então não era mais uma ilusão, transformara-se em uma preciosa parcela da realidade”. p. 184

“Na fotografia do grupo, realizada no dia da cerimônia, percebemos, em pé na primeira fila, Freud e Jung, vestindo sobrecasaca preta, ao lado de Stanley Hall, Adolf Meyer, Franz Boas, William James. Atrás deles, Jones, Brill, Ferenczi, Michelson, Rutherford. Entre esses homens de barba  ou bigode, alguns de bengala e chapéu na mão, achava-se, à direita, na última fileira, Solomon Carter Fuller, nascido na Libéria e neto de escravos americanos que haviam retornado à África. Primeiro psiquiatra negro do corpo docente da Escola de Medicina da Universidade de Boston, conhecia bem a Europa e a Alemanha, por ter sido aluno de Alois Alzheimer, em Munique, antes de se tornar um dos pioneiros americanos do estudo da terrível doença. Praticando também a psicoterapia, assistira com interesse às conferências de Freud”. p. 185.

Solomon Carter Fuller – 1872 – 1953

A história do porco-espinho x Freud

Putmam, convidou os europeus para um passeio em sua fazenda e Freud “que amava as florestas e a natureza selvagem, extasiou-se com a suntuosidade das paisagens e o estilo de vida de seus anfitriões naquela antiga fazenda transformada em residência campestre (…) após alguns esforços e longos passeios, finalmente encontrou um porco espinho, seu sonho, lamentavelmente morto. Para consolá-lo os Putmam lhe presentearam com uma estátua do animal, que ele colocou em seu consultório”. p. 186

Freud “havia muito tempo que era fascinado pela parábola de Schopenhauer, seu filósofo predileto, sobre a sociabilidade: “Num dia frio de inverno, um bando de porco-espinhos formara um grupo cerrado para usando o próprio calor, protegerem-se mutuamente contra a geada. Contudo, logo sentiram-se espetados pelas cerdas dos vizinhos, o que os fez afastarem-se uns dos outros. Quando a necessidade de se aquecer os aproximou novamente, o mesmo inconveniente se repetiu, de maneira que eles se viram ricocheteados entre os dois males até terminarem por encontrar uma distância média, que tornou a situação suportável para eles. Assim, a necessidade de sociedade, nascida do vazio e da monotonia de suas vidas interiores, empurra os homens uns para os outros; mas suas incontáveis maneiras de ser antipáticos e seus insuportáveis defeitos os dispersam novamente”. Shopenhauer concluía disso que a sociabilidade era inversamente proporcional ao valor intelectual de um homem e que era mais sábio viver na solidão do que em sociedade”. p. 186

Apesar de Freud ter, segundo a autora, conquistado o Novo Mundo, ele não deixou de ver a América como “uma máquina louca”:. “Meu sucesso será curto”, diria a Barba Low, “os americanos me tratam feito uma criança que se diverte com sua boneca nova, a qual logo será substituída por um novo brinquedo”. p. 186

Nos anos seguintes, a psicanálise tornou-se popular no tratamento mental nos EUA. Conseguiu varrer as velhas doutrinas psicossomáticas, “implantou-se no lugar e no espaço da psiquiatria, ridicularizou os grandes princípios da moral civilizada e suscitou o entusiasmo da classe média. Compreende-se então a fúria gerada, na sequência, contra aquele europeu pessimista, pouco inclinado a aderir ao eixo do bem e do mal em matéria de sexualidade. Ele não semeara, em 1909, a confusão na consciência pesada dos puritanos? Na realidade, os americanos receberam triunfalmente a psicanálise pelo que ela não era – uma terapia da felicidade – e a rejeitarão sessenta anos mais tarde por não cumprir a promessa que não poderia cumprir. (ROUDINESCO, 2016. P. 187). 

Enfim gente, o objetivo do post foi trazer um pouco sobre esse momento histórico da psicanálise, quando Freud e demais discípulos falou pela primeira vez nos Estados Unidos.

Esse livro da Roudinesco está rico em detalhes de todos esses momentos, estou lendo e adorando. Uma leitura gostosa, tranquila e bem escrita que nos faz viajar na história do início desses grandes homens que se dedicaram a causa da saúde mental.

Se você curte esse assunto, tem alguns posts por aqui, para citar apenas alguns:

Lacan e o ensino da psicanálise

Wilhelm Fliess x Freud

Lacan e o Caso Aimée

A influência dos sintomas psicológicos no diagnóstico do câncer

Psiquiatra x Psicólogo x Psicanalista

Ferdinand de Saussure x Lacan

Era isso por hoje.

Obrigada pela sua visita. Você é sempre bem vindo(a) por aqui.

Um abraço.

Referências:

ROUDINESCO, Elisabeth – Sigmund Freud – Na sua época e em nosso tempo. Ed.Zahar. Rio de Janeiro, 2016

Imagens disponíveis no google imagens.