Angústia, Medo e Terror

Oi Gente

Nesses tempos de pandemia, divido aqui com você um texto muito esclarecedor e que nos permite refletir sobre os desafios de estar passando por um momento, talvez nunca pensando dessa forma antes, que é lidar com o inimigo invisível.

Vou transcrever o texto do Psicanalista Lacaniano Jorge Forbes, na íntegra, onde foi publicado na revista desse mês HSM, caso você não tenha visto, vale a pena a leitura.

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Jorge Forbes – Psiquiatra e Psicanalista

Jorge Forbes, médico psiquiatra e Psicanalista Lacaniano, foi um dos responsáveis por introduzir o ensino de Jacques Lacan no Brasil. Entre os anos de 1976 a 1981, Jorge Forbes frequentou os seminários de Jacques Lacan em Paris. Foi, também, um dos fundadores da Escola Brasileira de Psicanálise. É mestre em Psicanálise pela Universidade Paris VIII, doutor em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo.

Atualmente, apresenta o programa Terra Dois da Tv Cultura, projeto desenvolvido pelo mesmo e autor de vários livros.

A seguir o artigo de Jorge Forbes:

QUE TERROR!

“Não temos ideia de como, quando e aonde ele vai nos atacar.”

Estamos sendo duramente apresentados a uma das formas do incompleto de nossas vidas, na figura desse vírus avassalador. Estamos em perigo! Freud diferenciava – em um texto escrito há exatos 100 anos, Além do Princípio do Prazer – três formas distintas de reagir ao perigo: Angústia, Medo e Terror.

Cito-o: “Angústia” designa um estado de expectativa do perigo e preparação para ele, ainda que seja desconhecido; “Medo” requer um determinado objeto, ante o qual nos amedrontamos; “Terror” se denomina o estado em que ficamos a correr de um perigo sem estarmos para ele preparados: o terror enfatiza o fator surpresas.

A atual pandemia nos aterroriza. É como se vivêssemos um combate de guerrilha. Nosso inimigo é pequenininho, sabemos da sua existência, mas não temos ideia de como, quando e aonde ele vai nos atacar. Ele nos surpreende dolorosamente.

Não é correto diagnosticar os efeitos psíquicos dessa pandemia como uma histeria. Ela é um terror. As reações a esse terror é que podem assumir matizes variáveis, entre outros: histéricos, obsessivos, perversos, paranóicos, psicóticos. Em uma situação dessas, cada pessoa escarafuncha seus sintomas de base e os expressa.

O histérico pode dramatizar excessivamente esse momento, ou fazer o contrário, ficar indiferente (La Belle indifférence). O obsessivo encontrará justificativas para suas manias de limpeza, de distância, de rituais ou pode hipertrofiar a arrogância do “comigo ninguém pode”, do “eu sou imbatível”. O perverso terá dificuldade de disfarçar seu prazer sádico. O paranóico consolidará suas teorias persecutórias. O psicótico se verá tomado de sentimentos desagregadores. Em ocasiões desestabilizadoras, como dito, a pessoa recua e hipertrofia seus sintomas mais habituais. É um mau tratamento do terror.

O que podemos almejar? Um duplo movimento: de um lado, no que é passível de compreensão, ganhar terreno sobre o terror invasivo transformando-o em um medo racional e objetivo. É o trabalho que médicos e profissionais de saúde estão fazendo. Que ninguém pense que do terror virá uma grande alegria. Bobagem. Se vier o medo, já teremos um caminho mais trilhável. De outro, uma vez que o incompleto e a surpresa não vão desaparecer, é de se esperar um aumento da solidariedade humana, no momento em que um vírus desmascara nossa fragilidade constitutiva comum. O “eu preciso de você” é universal e não local.

O que pode nos preocupar? Que esse momento de confiança no laço social seja abalado pelo desprezo de uma civilização que nos maltrata com suas respostas ruins, no limite, com a possibilidade da fome e da morte. Aí, se isso ocorrer, o terror se consolidará.

Jorge Forbes

Enfim gente, gostei do artigo e por isso resolvi dividir aqui com você. Que possamos nesse momento, ficar no estágio do medo que já está de bom tamanho.

Era isso por hoje.

Obrigada pela sua visita. Você é sempre bem vindo(a) por aqui.

Um abraço.