Oi, Gente!
Quem já assistiu O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale)e topa refletir um pouco a respeito?
Eu sei que muita gente acompanhou essa história em conta-gotas ao longo dos anos, sofrendo e esperando cada temporada sair. Mas eu só parei para assistir a série agora: direto, do começo ao fim, engolindo as 6 temporadas completas de uma vez só. E vou te dizer: é fogo! Que paulada. É uma obra tão densa, incômoda e pesada que nos faz refletir muito. Em vários momentos, a vontade é de desviar o olhar do monitor diante das sombras da mente e do poder.
Para quem quiser lembrar os detalhes da história ou ler a ficha técnica da produção, vale a pena dar uma olhada na página oficial do O Conto da Aia na Wikipédia. Assim, sem precisar chover no molhado sobre o enredo, quero entrar direto no que me instigou de verdade: a mente humana sob o peso de Gilead.
Mas, como psicanalista, o meu olhar foi capturado por algo além do choque da distopia política. Eu simplesmente não tenho como não falar a respeito disso por aqui. Afinal, ver essa jornada inteira sem pausas de anos me deu uma visão muito nítida da anatomia do trauma, do apagamento cirúrgico da identidade dessas mulheres e dos mecanismos extremos que a nossa mente precisa criar para conseguir sobreviver à perversão diária.
A perversão em nome de “Deus”
Sinceramente, a série nos faz pensar sobre a perversidade humana e até onde podem chegar a brutalidade e a maldade de um ser humano e se justifica em “nome de Deus” para agir dessa forma. Vale lembrar que, na estrutura perversa, não existe o sentimento de culpa pelas atrocidadaes cometidas e muito menos a empatia.
A hipocrisia aparece praticamente durante a série inteira. Embora seja uma ficção, nos faz refletir sobre o mundo real. O fanatismo, o fundamentalismo de algumas seitas e religiões e as convicções extremas têm a capacidade de submeter os seres humanos aos mais diferentes atos de perversidade.
O que mais assusta é ver como essas convicções extremas controlam o outro. No fim, como sempre acontece na história, as mulheres e as crianças acabam sendo as maiores vítimas dessa perversidade.
O Sistema Patriarcal e o Machismo em Gilead
O Sistema Patriarcal é uma estrutura social em que os homens detêm o poder principal, a autoridade moral, o controle das propriedades e as funções de liderança, subordinando as mulheres e outras identidades.
Na história, devido a uma soma de fatores — como a degradação do meio ambiente, infecções sexualmente transmissíveis e lixo tóxico —, as taxas de fertilidade caem absurdamente. Os poucos bebês que nascem morrem logo em seguida. As raras mulheres que permanecem férteis são justamente as que mais sofrem no novo regime, transformadas em escravas: as aias.
Uma nova sociedade foi criada: Gilead. Um regime totalitário administrado por homens que tratam as mulheres como puros objetos de uso e descarte.Ali são apresentadas as várias castas na direção dessa “sociedade”, com diferentes funções, sendo a morte o critério, sem piedade, para a desobediência.
As aias deixam de pertencer a si mesmas para pertencerem ao Estado. Seus corpos — ou melhor, seus úteros — passam a ser utilizados para a procriação que está ameaçada. Para isso, elas passam por uma longa lavagem cerebral recheada de traumas físicos e psicológicos, tudo para que aprendam a servir a Deus e aos seus senhores.
A série é realmente pesada, porém, se refletirmos sobre o que nos é apresentado ali, é interessante notar que muitas situações não estão fora da nossa realidade atual.
Até que ponto o poder dos homens sobre as mulheres, no sentido de submetê-las, terá um fim? É incrível observar o nível de machismo, também, em mulheres (as esposas dos comandantes) que se acham superiores às demais. A maioria delas é infértil e, nesses casos, apenas as mulheres carregam esse fardo, pois dentro daquela cultura é impensável questionar a fertilidade masculina.
Será que na maioria dos países, e também aqui no Brasil, o sistema patriarcal ainda não impera? E o machismo? Quantos homens ainda acham que suas parceiras são suas propriedades? Ao ponto de, quando elas decidem sair desse domínio, tornarem-se vítimas de agressões, ameaças e feminicídios — crimes violentos que observamos diariamente no noticiário.
A perda total da identidade e singularidade
As identidades são perdidas, e a singularidade, nem se fala. As aias são obrigadas a se vestir com a mesma roupa, uniformizadas para não esquecerem o seu lugar e a sua função dentro daquele ambiente. É uma forma de dizer que o seu mundo e o seu passado acabaram a partir do momento em que chegaram ali. Até seus nomes verdadeiros são proibidos.
Vocês se lembram do que fizeram com os judeus ao obrigá-los a usar a estrela de Davi? Os uniformes não deixam de ser uma forma cruel de colocar cada indivíduo em seu devido lugar, desprovido de humanidade?
O vestuário e as cores usados como simbolos
O vestuário também é uma forma de o ser humano se identificar, expressando suas escolhas de como quer que sua imagem seja vista. Ali não. As cores e vestimentas servem para ditar o lugar de cada um dentro do sistema.
O vermelho: Sangue, Fertilidade e Pecado
O vestido vermelho das Aias é a cor mais marcante da série e carrega múltiplos significados sobrepostos:
- Fertilidade e Sangue: Representa o sangue menstrual e o parto. O vermelho delimita a única função biológica permitida a essas mulheres pelo regime: a procriação.
- Pecado e Redenção: Evoca a figura bíblica de Maria Madalena e a “mulher de vermelho” associada ao pecado carnal. Gilead veste as Aias de vermelho como um lembrete visual de sua suposta “impureza” passada, exigindo delas uma servidão compensatória.
- Alvo Visual: O vermelho vivo funciona como um mecanismo de vigilância. Ele torna as Aias facilmente visíveis no espaço urbano, impedindo qualquer tentativa de fuga ou comportamento dissidente sem que os Olhos ou os Guardiões percebam imediatamente.
As “Asas” Brancas: Isolamento e Cegueira
O chapéu branco (chamado na série de wings ou asas) atua diretamente na privação sensorial:
- Visão Periférica Bloqueada: As abas rígidas impedem que as Aias olhem para os lados. Elas são forçadas a olhar apenas para a frente, simbolizando a obediência cega e a proibição de interagir livremente com o mundo.
- Ocultação da Identidade: O acessório esconde o rosto e os cabelos das mulheres. Sob a ótica de Gilead, isso elimina a vaidade, a individualidade e as feições que as tornariam únicas, transformando-as em objetos idênticos de reprodução.
- Falsa Pureza: A cor branca do acessório remete à virtude e à modéstia religiosa, contrastando de forma violenta com a realidade de estupro institucionalizado que elas vivenciam.
O azul-petróleo veste as senhoras dos comandantes para identificá-las em uma posição superior perante as demais mulheres. Apesar da posição social de elite, elas também são privadas de direitos fundamentais: não podem ler, escrever ou ter acesso às notícias. Estão ali simplesmente para cumprir o papel de administradoras do lar e apoiadoras submissas de seus maridos.
Os diferentes tipos de vestuário designando o papel de cada um
Nessa série, se fôssemos analisar cada casta e posição dentro dessa sociedade totalitária, teríamos que escrever um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Mas aqui quero dividir apenas alguns detalhes para que você possa assistir à obra e refletir a respeito.
É interessante notar como determinadas aias, quando já integradas ao grupo, acabam aceitando essa condição e, por vezes, até agradecendo pela oportunidade. Freud já dizia:
Freud já dizia: “Ao entrar para a massa, o indivíduo abre mão do seu ideal do Eu e o troca pelo ideal da massa, corporificado no líder.” — Sigmund Freud
O papel das “Tias”: A perversão e a inveja sistêmica
E as “Tias”? Aquelas que se vestem de marrom ou verde-oliva e obedecem rigidamente às ordens dos comandantes. Na série, elas são as responsáveis por instruir e realizar a lavagem cerebral nas Aias. Elas ajudam no controle, na fiscalização e na aplicação de castigos cruéis àquelas que tentam burlar o sistema.
O comportamento delas, muitas vezes, assemelha-se ao dos homens na brutalidade. Diante da perda da feminilidade e da constatação de que não são férteis, observa-se nelas um nível profundo de inveja em relação às Aias — que, na sua maioria, são jovens, bonitas e despertam o desejo dos homens.
Esse comportamento de violência e hostilidade contra as Aias é típico da inveja inconsciente. Na dinâmica psíquica, é como se a mente operasse da seguinte forma: “Já que não consigo ser como você ou possuir o que você tem e eu não tenho, eu preciso destruir você. Só assim deixo de ser lembrada, a todo momento, da minha própria falta”.
Ao mesmo tempo, as Tias também passaram pela engrenagem da lavagem cerebral do sistema. Elas encontram na rigidez uma forma de compensação, sentindo-se poderosas e superiores em relação às demais mulheres subordinadas naquela sociedade.
E o amor de June e Nick nessa sociedade onde o afeto é banido
É interessante notar que, dentro da série, há um amor proibido entre June e Nick. Há ali, de certa forma, um alívio durante a história, pois eram os momentos que davam a esperança de alguma mudança dentro daquela realidade. Esse amor proibido entre os dois funciona como uma verdadeira forma de resistência dentro da sociedade de Gilead, onde a afetividade era estritamente proibida.
Era o momento da série onde se podia ver algum laço social e o desejo de os dois resgatarem e não perderem as suas identidades. Era como se, naquele momento, mesmo às escondidas, fosse possível resgatar algo deles próprios, antes de entrarem nessa loucura.
As cenas dos dois me faziam lembrar de outras histórias de amor na época do nazismo, já relatadas em casos verídicos e em filmes, como também nos horrores de algumas guerras.
Refletindo sobre o que ainda acontece na contemporaneidade.
Na série, eles mostram o poder desse Estado totalitário como dono absoluto dos corpos que servirão puramente para a reprodução. As mulheres não têm direitos sequer de ter contato com os filhos logo ao nascer, sendo obrigadas a doá-los para casais que se julgam os melhores para educar as crianças dentro do sistema dessa nova sociedade.
As aias são forçadas a participar do “cerimonial de estupro” pelos comandantes sob a ajuda e o olhar das esposas, como se isso fosse algo totalmente natural dentro daquela cultura.
As mulheres são consideradas as únicas culpadas pelo sistema, afinal, naquela sociedade, como alguém ousaria questionar a fertilidade masculina?
E hoje, isso também não acontece na nossa sociedade? Diante de casais que não conseguem ter filhos, a mulher ainda é a primeira a se submeter a todos os exames e tratamentos de fertilidade. Só depois, e muitas vezes com uma certa resistência, observamos os homens aceitando passar por alguma investigação médica.
Você também consegue enxergar traços de Gilead no nosso dia a dia?
Enfim gente, se você assistiu a série deixe nos comentários o que achou e, caso não tenha assistido, fica aqui a dica.
Era isso por hoje.
Obrigada pela sua visita. Você é sempre bem vindo(a) por aqui.
Um abraço.