Dica de Livro: As depressões, o luto e a melancolia

Oi Gente

O objetivo do post é falar um pouco sobre o título desse livro de Jean-Jacques Tysler, psiquiatra, psicanalista, membro do Bureau da Association Lacanienne Internationale; Diretor do Dentro médico Psico-Pedagógico para Crianças e Adolescentes da Mutuelle de l’éducation Nationale de Paris: Diretor do Ensino de psicanálise e psiquiatria clássica no Hospital Psiquiatrico de Ville Evrard; docente da École Pratique des Hautes Études en Psychopathologie e Membro do comitê de redação do Jornal Français de Psychiatrie e de La Revue Lacanienne, onde nesse livro traz alguns questionamentos sobre a sociedade contemporânea e o aumento das patologias depressivas.

Nesse momento de tanta tristeza, incertezas e desafios diante desse inimigo invisível, chamado de Covid-19, esses temas: depressão, luto e melancolia não deixam de nos convocar a reflexões sobre a seriedade desses assuntos. Acabei de ler esse livro e que é muito rico para uma reflexão.

O livro é “uma coletânea onde reúne seminários proferidos por Jean-Jacques Tysler ao longo dos anos de 2014 a 2017 na École Prátique des hautes Études en Psychopathologie, intervenções em colóquios e jornadas, bem como artigos recentes publicados em revistas e livros”.

O livro foi organizado por Letícia P. Fonseca e teve a colaboração dos tradutores: Antonio Roberto Brunetti, Caio Tavares, Fernando Tenório, Maria Amélia Alves Lyra, Maria de Fátima Vilar de Melo, Sylvia Morard e a própria Leticia P. Fonseca – Espaço Moebius de Psicanálise, Recife, 2017.

Os textos traduzidos se referem a assuntos que nos deparamos no dia a dia da clínica:

Problemas do humor e bipolaridade; depressividade; a pulsão de morte; Luto e melancolia, Mania, melancolia, psicose maniaco-depressiva, passados cem anos após o texto de Freud, quais os avanços e quais enigmas? A psicose maníaco-depressiva. De uma clínica da temporalidade a uma clínica do objeto e O ofício de tecer os nomes do pai.

Quero dividir aqui com vocês, alguns momentos da leitura, que achei interessante e que possa, quem sabe, servir para esse momento em que estamos passando, para refletir a respeito do sofrimento humano. Citei apenas algumas passagens que possa ser de entendimento até mesmo para você que é leigo nesses assuntos.

Abaixo com as palavras de Jean Jacques Tysler:

Pulsão de Morte

O autor nos chama a atenção em um dos textos sobre a Pulsão de Morte “na agitação das crianças muito pequenas, na agressividade não canalizada das crianças um pouco maiores, nos transtornos alimentares, nas adições muito precoces que não existiam nos jovens há dez anos, nas escarificações e cortes, nas automutilações”. p. 08

Problemas do humor e bipolaridade

“A bipolaridade tornou-se um significante chique, na moda. Integra um certo número de termos psiquiátricos que estão em gosto atualmente, como Asperger para o autismo de alto nível. (…) “Eu sou bipolar” tornou-se a afirmação de uma identidade tanto quanto o nome de um problema, a maneira com que ele é dito a fim de não falar de doença”. p.15

“O espectro da bipolaridade estendeu-se bem além das categorias tradicionais, numa espécie de continuum indo de um simples traço de caráter até aos episódios bem patológicos, fazendo naturalmente o leito e a forturna de uma clínica da indústria farmacêutica”. p. 15

“Palavras como mania e melancolia vêm de longe. E isso permanece, então, por muito tempo. Mas, vejam hoje – por razões que tentamos analisar, mas que são complexas – as palavras mudam, e quando vocês estão nos serviços de psiquiatria, as pessoas não falam mais de mania e de melancolia, elas lhe falam de bipolaridade”, p. 27

Depressividade

“Por que acrescentar o termo depressividade à nossa reflexão sobre as depressões? De início, porque esta ultima palavra tomou uma proposição considerável e tornou-se, amplamente, o saco de provisões de um clinica cada vez mais submetida à farmacopeia”. p. 19

“Lacan nos legou três grandes registros para declinar um fato clínico. Podemos dizer imaginário da depressão, para situar todo esse quadro do narcisismo fragilizado pela moderna competição; podemos dizer depreciação simbólica para comentar todas as formas de perda da autoridade nas funções outrora sagradas; podemos, enfim, nomear real da depressão o que corresponde ao antigo contorno da melancolia”. p.20

“Tornada paradigma da nova clínica, a depressão é, frequentemente, analisada como uma renúncia face aos valores e às tarefas fálicas da existência. O sujeito não pode afrontar a exigência contínua da competição, tanto no domínio do trabalho como naquele da intimidade, aí incluído o sexual. Diante da exigência de gozos sempre mais, ele opta pelo que Lacan nomeava de covardia. Ele rende-se e o resto também”. p. 20

“Muito simplesmente, não podemos, não ousamos nem queremos ver de frente que o fato brutal do fundo existencial em que o homem chegou durante o nosso século não é somente a história particular e insólita – incompreensível – de uma ou duas gerações, mas constitui uma norma saída da experiência que contém as potencialidades gerais da humanidade e então, nesse cenário, as nossas…Em outros termos, não é a história que é incompreensível, somos nós que não compreendemos mais a nós mesmos”.p, 21

Luto e Melancolia

“É preciso situar as dificuldades das elaborações de Freud: em seu artigo de uma grande profundidade, Luto e Melancolia, Freud coloca a questão: o que é um luto? Para cada um, a experiência do luto é um saber; a ocasião forçada de dar sentido a sua existência e de se interrogar sobre o amor que nos religa aos outros. O que é o trabalho do luto? A idealização do ser tendo desaparecido, o que é que faz traço de identificação no inconsciente? O que é um luto patológico? E, ainda, essa outra borda que não acarreta saber e que se nomeia melancolia…”p. 18

O autor cita Freud, quando esse se interessa pela melancolia: “O melancólico apresenta ainda um outro traço que está ausente no enlutado, uma autodepreciação extrema, um notável empobrecimento do eu. No luto, o mundo se tornou pobre e vazio, na melancolia – bem, vocês sabem dessa frase cérebre – é o próprio eu. O doente nos descreve seu eu como infame, que não serve para nada, é moralmente condenável. Ele faz reprovações a si mesmo, injuria-se e espera ser rejeitado e punido. Ele se rebaixa sempre diante dos outros, lamenta por toda sua família estar ligada a uma pessoa tão indigna, etc. p. 69

“Mas eu diria que, por exemplo, vocês se aperceberam o quanto, quando alguém, um parente morre, depois de anos ocorre ainda deles lhes falar dele em sonho. E é verdade, é surpreendente! Mesmo quando vocês perderam alguém há dez, quinze anos, de repente há um sonho e então ele está ali, ele lhes fala. (…) Isso quer dizer que houve seguramente alguma coisa que terminou, que acabou, no melhor dos casos. Mas que há uma parte que não se liquida de forma alguma, há uma parte desse diálogo com o enlutado que, no fundo, provavelmente continua ali toda a vida.”p. 86

O autor cita Freud: “o ponto crucial no interior do texto de Freud diz que quando sofremos um luto, quer seja individual ou coletivo, uma perda, o inconsciente vai reagir, não simplesmente por um acréscimo de interesse pelo objeto perdido, mas essencialmente pelo recorte e incorporação de um traço. Quer dizer, à perda libidinal, à perda fantasmática, vai responder alguma coisa num outro plano – o que é crucial em Freud – o terreno das identificações. p. 115

Entre alguns exemplos de atendimentos com criança, o autor comenta sobre casos da agitação das mesmas, possivelmente estar relacionado há algum tipo de perda, não somente a perda por morte de um dos pais, mais possivelmente demais perdas, como separações e até mesmo abandonos.

Vale lembrar, quando se fala em lutos, não se trata somente de elaborar lutos com relação a morte, mas também, lutos da perda de um relacionamento amoroso, de um emprego e até mesmo de alguns projetos que não foram possíveis realizar.

Diante desse momento em que estamos vivenciando, durante essa pandemia, com tanto sofrimento e muitas perdas já vivenciadas ou que poderão surgir, estar atendo para a nossa saúde mental em se tratando de elaborar alguns possíveis lutos, tentar conhecer um pouco a respeito, talvez possa nos ajudar em algum momento.

O livro está muito bom e não foi meu objetivo aqui resumi-lo, apenas deixar como dica de leitura, para você que se interessa, estuda ou trabalha com a psicanálise.

Enfim gente, o livro trata de várias questões, com exemplos clínicos e colaborações em debates com mais participantes desses seminários. Uma leitura hiper recomendada para os nossos tempos atuais.

Esse livro eu adquiri em um dos encontros de psicanálise e acredito que, caso queiram adquiri-lo, possivelmente, poderão encontrar ou entrar em contado no site abaixo, pois a tradução do mesmo e edição, foi realizado pelo espaço moebius, no site abaixo:

https://www.espacomoebius.com.br/

Era isso por hoje.

Obrigada pela sua visita. Você é sempre bem vindo(a) por aqui.

Um abraço.