Como ser você mesmo em uma sociedade?

Oi Gente
 
Esse texto da Sonia, uma professora da UEL –  Universidade Estadual de Londrina,  faz com que a gente pense bastante a respeito dos modos de subjetivação que vem acontecendo hoje em dia, fazendo com que o ser humano viva em um dilema constante entre o que ele é e quer ser e o que a sociedade dita a ele,
 
Eis ai  um pequeno Resumo, feito por mim. Espero que gostem.  Algo para se pensar…
 

 
Sujeito, subjetividade e modos de subjetivação na contemporaneidade
 
Sonia
Regina Vargas Mansano1 – Universidade Estadual de Londrina
 
Na contemporaneidade falar de sujeito, subjetividade e modos de subjetivação foi o desafio de Mansano (2009), ao se basear nos conceitos de três grandes pensadores da Filosofia Francesa,
Michel Foucault, Félix Guattari e Gilles Deleuze que as descrevem de modo muito reflexivo no sentido de poder localizar onde está o sujeito neste momento histórico.
 
O conceito de subjetividade para Gattari  não se centraliza no indivíduo e nem tão pouco pode ser visto com uma totalização, mas a subjetividade  é algo que é produzido continuamente e  que se dá de acordo com a sua relação com outro. Entendendo-se como o outro não somente  aquele que atua como um outro social, mas também o que produz efeitos nos corpos e na maneira de
viver em sociedade, incluindo ai a natureza, os acontecimentos, as inovações, tudo aquilo que circula em torno desse corpo.
 
Os componentes de subjetividade que estão circulando no espaço social onde esse indivíduo está inserido são fabricados e a partir daí se tornam modelos que serão registrados no campo social.
 
Valores, idéias e sentidos vão sendo registrados singularmente tornando-se assim uma matéria prima para a produção e expressão de afetos quando do momento desses encontros. Sendo assim,
o sujeito vai sendo a todo tempo “bombardeado” recebendo e emitindo esses componentes e fazendo uso deles, até que se obtenha uma construção coletiva.
 
Como são difundidos esses componentes na sociedade? Através das instituições, procedimentos, práticas, linguagem, tecnologia, ciência, trabalho, mídia, informação,  e práticas existentes em cada momento histórico e que a qualquer tempo são passíveis de mudanças e dessa forma também circulando na vida social.
 
Falar em singularização diante dessa produção da subjetividade é algo desafiador ao sujeito, uma vez que segundo Gattari, citado por Mansano “singularização é algo que frustra esses mecanismos de interiorização dos valores capitalísticos, algo que pode conduzir à afirmação de valores num registro particular, independentemente das escalas de valor que nos cercam e espreitam por todos os lados”. (Mansano,  2009) p. 112.
 
Michel Foucault quando tratou dos modos de subjetivação em uma entrevista denominada “Sujeito e Poder” o qual fez parte da análise de Mansano (2009) deixou claro que o objetivo do de
seu trabalho não era o de analisar o fenômeno e nem tão pouco elaborar os fundamentos desse poder, mas sim foi de demonstrar como, através da história dos diferentes modos existentes, o ser humano tornou-se sujeito, dentro da sua cultura.
 
Foucault voltou na historia dos gregos para definir o Cuidado de Si, onde o cuidar de si não era imposto e sim uma opção do sujeito, que uma vez optando por cuidar de si, este também poderia participar como ser político da cidade ou do contexto onde estava inserido.
 
No inicio os vínculos se faziam com aqueles que cuidando de si poderia também estabelecer condições para cuidar dos outros, agora como ser público. Mansano (2009) faz uma citação de Foucault onde fica mais clara essa situação.
 
Na Antiguidade, esta elaboração do si e sua conseqüente austeridade não é imposta ao individuo pela lei civil ou pela obrigação religiosa; trata-se, ao contrário, de uma escolha feita pelo indivíduo para a sua própria existência. As pessoas decidem por si mesmas se cuidam ou não de si (…) Agiam, antes, de modo a conferir a suas vidas certos valores (reproduzir exemplos, deixar uma alta reputação para a prosperidade, dar o máximo possível de brilhantismo às suas vidas). Era uma questão de fazer da vida um objeto para uma espécie de saber, uma técnica, uma arte. (Faucault, in: Rabinow & Dreyfus, 1995, p. 270).
 
Sendo assim, “os modos de subjetivação podem tomar as mais diferentes configurações, sendo que estas cooperam para produzir formas de vida e formas de organização social distintas e, cabe insistir, mutantes”. (Mansano, 2009) p. 114.
 
Foucault ao voltar a história para explicar esse conceito de modos de subjetivação vai elaborando esse conceito no sentido de que, o que no inicio era facultado a decisão do indivíduo, com o passar do tempo esse poder agora se tornando público vai impondo ao ser humano esses modos de subjetivação, fortalecendo o individualismo como ocorre nos dias atuais, onde o ser humano já não se singulariza mais, e não lhe é mais facultado a escolha e sim é dominado e tomado pelo poder, poder esse que aos poucos foi sendo imposto, com os modos de subjetivação, confirmando o que Mansano coloca, ou seja produzindo formas de vida e de organização social distintas e mutantes, de acordo com os interesses de cada momento histórico.
 
Assim cabe nos perguntar e o Sujeito como ser humano? Onde está? como ficou a sua formação diante desse contexto? Quem vai nos ajudar a responder essas questões é outro
Filosofo Frances Gilles Deleuze, em sua obra “Empirismo e Subjetividade”.
 
Para Deleuze o “sujeito se constitui no dado” (Mansano, 2009) p.115  O sujeito no encontro com o outro, nos acontecimentos vai se angustiando e questionando o que ele é e que os dados que
estão sendo fornecidos dessas relações complexas  sugerem que ele seja.
Nesse sentido, o sujeito se deparando com essas forças externas no encontro do eu, deixa de ser o que pensava ser e vive um enfrentamento constante. Deleuze citado por Mansano, explica  “O lado de fora diz respeito à força: se a força está sempre em relação com outras forças, as forças remetem necessariamente a um lado de fora irredutível, que não tem mais sequer forma, feito de distâncias indecomponíveis através das quais uma força age sobre a outra ou recebe a ação da outra. (Deleuze, 1988, p.93).”
 
Sob essa visão de Deulezze o sujeito enquanto ser social, não tem como fugir dessas forças externas a ele. Essa luta constante entre o eu e os outros, geram um movimento
em que esse sujeito acaba sendo moldado pelo que a sociedade quer dele, ou seja o sujeito deixa de ser sujeito singularizado para ser um sujeito de acordo com os dados que lhe são ofertadas no encontro com o outro.
 
Romper esse movimento é uma luta constante que o sujeito tem que enfrentar e, com esse conceito de Deulezze, dos dados atendendo de certa forma o que o momento histórico espera desse sujeito, somente com uma luta social questionando as forças que estão fora desse sujeito é um desafio para a  Psicologia , uma vez que falar em sujeito e singularidade requer lutas e enfrentamentos contra as forças externas que compõe o contexto, uma ação política,  onde esse sujeito está inserido.
 
Segundo Mansano (2009) “ (…) E, para isso, cabe-nos a difícil tarefa de acolher a diferença como parte integrante da vida. Diferença a partir da qual o  outro, em seus movimentos de diferenciação complexa e na sua dimensão mais viva, possa sem ser reduzido a um cumpridor de novas normas universalizadas. Isso implica em conceber a subjetividade, os modos de Subjetivação e o Sujeito como construções que não se fecham em uma entidade apaziguada”. P. 218.
 
Era isso por hoje gente.
Obrigada pela visita. Você é sempre bem vindo (a) por aqui.
Um abraço.
 

Referências:

Revista de Psicologia da UNESP, 8(2). 2009. 117