Freud e seus filhos na vida familiar

Oi Gente

O post de hoje tem como objetivo dividir aqui com você um pouco sobre a história de Freud e sua relação familiar. Penso que em um blog tem como um dos objetivos trazer, de forma rápida, alguma informação que você possa estar procurando e, se o assunto te despertar para conhecer algo mais a respeito, fica a critério de cada um ir em busca de maiores conhecimentos.

Um dos assuntos que gosto muito de ler, dentro dos estudos de psicanálise, é sobre a história de vida dos próprios psicanalistas da época e do próprio Freud, considerado o pai da Psicanálise.  Lendo o livro de Elisabeth Roudinesco, (historiadora e psicanalista francesa)  sobre Sigmund Freud, na sua época e em nosso tempo, da ed. Zahar,  um livro que estou gostando muito, tem um capítulo dedicado a “Famílias, cães e objetos”de Freud.

Segunda a autora, Freud dizia que “A FAMÍLIA,  é uma grande felicidade, mas também o início de preocupações sem fim”. p. 269 

Pensando bem foi em torno da família, tratando de pais, mães, filhos, irmãos que se deu todo o seu percurso profissional. Mas Freud, na sua vida particular, “cercava-se, assim, de tudo que lhe permitisse proteger-se o melhor possível das violências do tempo presente: a rotina do lar, os animais, os objetivos de coleção, a exploração arqueológica da alma humana através da experiência do divã”. p. 269

Os pais de Freud se uniram naquele tempo em que os casamentos eram arranjados. Sua mãe Amália e seu pai Jacob tiveram 8 filhos em dez anos. Mas, Freud já pode escolher a sua esposa, casando-se por amor. Sua esposa Martha lhe deu 6 filhos em 8 anos.

A primeira família de Freud

Freud teve 5 irmãs e quatro delas tiveram filhos:

  1. Anna Bernays – 5 filhos – Judith, Lucy, Edward, Hella e Martha
  2. Rosa Graf – 2 filhos – Hermann e Cacille
  3. Maria Freud – 5 filhos – Margareth, Lilly, Martha, Theodor e Georg
  4. Paula Winternitz – 1 filho – Rose Béatrice

Quanto ao seu irmão Alexander, casado mais tarde, teve apenas um filho (Harry).

Dos sobrinhos de Freud – 1 morreu na primeira guerra mundial (Hermann Graff); 2 se suicidaram (Cacilie Graff e Tom – sobrinho segundo, filho de Martha e outro morreu afogado, em um acidente (Theodor).

“Todos os membro dessa vasta comunidade Vienense casaram-se com judeus ou judias e, embora não fossem adeptos de um judaísmo de obediência ortodoxa, ainda assim tinham a preocupação, em alguns casos, de respeitar os ritos”. p. 270     

Embora todos os seus parentes tenham se casado com pessoas das mesmas crenças judaícas,  Freud não era contra os casamentos mistos.

Os filhos de Freud com Martha

Freud e Martha

Freud e Martha tiveram 6 filhos, os quais vivenciaram duas grandes guerras mundiais mortíferas. Dos seus 6 filhos, apenas 4 tiveram filhos,uma permaneceu solteira (Anna) e Sophie morreu de doença.

Todos os filhos de Freud puderam escolher os seus pares amorosos para o casamento e, apesar de não ser uma exigência da família, casaram com cônjuges judeus.

Os filhos e netos de Freud

Freud, Martha e filhos

 

Mathilde (nascida em 1887)

 Jean Martin ( nascido em 1889) – teve dois filhos ( Anton Walter e Sophie);

Oliver – (nascido em 1891) – teve 1 filha (Eva);

Ernst – (nascido em 1892) – teve 3 filhos (Stefan, Lucian e Clemens);

Sophie Halderstdt – (nascida em 1893) –  2 filhos (Ernstl e Heinz)

Anna (nascida em 1895) – solteira sem filhos

“Muito próximo das filhas, Freud compreendeu que elas nunca seriam semelhantes à mãe e à avó, mas, à exceção de Anna, quis evitar que se emancipassem segundo o modelo de suas discípulas. Aliás, elas não almejavam outro destino”. p. 271.

“Martha criava os filhos, reinava no lar e comandava dois ou às vezes três empregados, mas não se intrometia nos assuntos intelectuais do marido, que reunia seus discípulos em casa. Assim, quando um dos moradores da Berggasse pretendia mudar de quarto ou modificar o que quer que fosse na distribuição dos cômodos, tinha de se dirigir a ela”. p. 272 . Li um livro muito interessante e fiz um post aqui sobre a Madame Freud: Livro – Madame Freud – Freud pelo olhar de sua esposa.

“Freud preocupava-se com a educação dos filhos, sofrendo quando se separava deles, em especial quando deixavam o lar para se casar. Muito cedo, exigira que fossem informados por leituras, e não por ele, acerca da realidade da vida sexual”. 272.

 Mathilde – sua filha mais velha

Mathilde, a filha mais velha, sempre apresentou uma saúde frágil chegando a beira do morte por várias vezes. Devido a uma sequela de uma cirurgia de apendicite ela não pode ser mãe. Freud chegou a cogitar a possibilidade de casá-la com Firenczi, mas ela se casou em 1909 com Robert Hollitsher, um pessimista e negociante de têxteis, que não tinha lá o perfil de um grande comerciante. “Freud o qualificava de “amoroso e valente”.  O Casal morava num apartamento próximo da Berggase, o que permitia a Mathilde visitar diariamente os pais. Sempre muito elegante e exibindo certa frieza, era dedicada à família e compartilhava com a mãe o amor pelo tricô. Por seus talentos de estilista, conseguiu ganhar um pouco de dinheiro, o que lhe permitiu não depender inteiramente da família”. p. 275.

Sophie – a filha mais bonita e o maior sofrimento de Freud

Sophie era a filha mais bonita de Freud o que gerava inveja na caçula Anna. Não se interessava  como as outras irmãs pelas coisas intelectuais. Era amante da dança, de Ópera e vida social. Foi apaixonada e correspondida pelo amigo de seus irmãos Hans Lampl, que mais tarde se tornaria um dos discípulos de Freud. Sophie foi obrigada a desistir de Hans, devido a oposição dos pais, por o acharem muito jovem sem nenhuma estabilidade financeira.

Foi em Hamburgo, distante de casa, que conheceu aquele que seria seu marido, o fotógrafo e parente distante Max Halderstadt. “Freud adotou-o como um filho, a ponto de lhe conceder o monopólio comercial de seus retratos oficiais. (…) Max sobreviveu à Primeira Guerra Mundial, ainda que depauperado por uma neurose traumática, com cefaleias e depressão.”p. 276.

Sophie não queria o mesmo destino de sua mãe e avó e, após ter dois filhos e temendo engravidar de um terceiro, pediu conselho a Freud que “lhe recomendou recorrer à contracepção e instalar um “pressário” (diafragma). Mas, quando Sophie engravidou novamente, foi aconselhada por Freud a aceitar o fato. 

“Em 1920, debilitada pelo seu estado, Sophie contraiu a gripe e morreu em poucos dias, a despeito dos esforós de Arthur Lippmann, médico do Hospital Geral de Hamburgo, que não conseguiu salvá-la. Numa carta, Freud, aterrado de dor e culpa, admitiu não ter aquilatado a que ponto aquela gravidez indesejada alterara o estado psíquico da filha: “O destino infeliz de minha filha me parece comportar uma advertência que não costuma ser levada suficientemente a sério por nossa corporação. Frente a uma lei desumana e desprovida de empatia, que inclusive impõe à mãe que não o quer a continuação da gravidez, o médico deveria manifestamente assumir como um dever ensinar vias apropriadas e inofensivas capazes de impedir a gravidez indesejada – na esfera do casamento”. Lembrando aqui que, até então, não existia ainda as pílulas anticoncepcionais.

O filhos de Sophie, um deles Heins (Heinerle)  foi entregue a irmã mais velha Mathilde e Anna ocupou-se de Ernstl. Foram elas as segundas mães dos filhos de sua irmã Sophie.

Em 1923, Heinz morreu das sequelas de uma tuberculose miliar. Freud se viu desesperado pela perda do neto, que ocorreu três meses após a descoberta de seu câncer. Freud, continuou a ajudar financeiramente  o ex-genro Max, incentivando na segundas núpcias,onde dizia” Quem foi feliz num casamento, será facilmente de novo”. p. 277.

Sobre os três filhos de Freud

Quanto aos seus filhos, nenhum dos três se parecia com Freud e nem entre eles. 

MARTIN 

O segundo filho de Freud, Martin, “praticava esgrima, batia-se em duelos, redigia poemas, não era bom aluno e vivia atrás de uma saia. Alistado em 1914 como voluntário, após cursar direito, atravessou a guerra como o período mais feliz de sua vida. Em combate, dera provas de insolência e bom humor e não refugava frente ao perigo: ele não tem nem supereu nem inconsciente, diziam na família. Quando se casou com a bela e elegante Ernestine (Esti) Drucker, oriunda de um meio abastado, Freud a achou ‘bonita demais’ para entrar na família. Na realidade, julgava-a  “completamente louca”e pouco apta a suportar as dissipações de seu filho. (…) Esti trabalhava, recusava-se a engravidar reiteradamente, ao mesmo tempo em que sofria sua condição de mulher mantida e traída. Apesar do apoio do pai e do sogro, Martin passou por diversas dificuldades financeiras. Além disso, brigava com a mulher, da qual terminou por se divorciar. Durante vários anos, até o exílio de 1938, encarregou-se da administração do Verlag”. p. 278.

OLIVER

Oliver, considerado o filho predileto da mãe Martha, não teve muita sorte na profissão devido a crise econômica, após o término da Guerra. “Quando se instalou em Berlim, após uma ruptura e um divórcio, solicitou a Eitingon que o tomasse em análise. Sentindo-se demasiado próximo à família, este recusou e foi Franz Alexander, húngaro de origem e futuro cidadão americano, quem aceitou a pesada tarefa. Freud fez questão de pagar o tratamento. Oliver casou-se com Henny Fuchs, pintora com quem teve uma filha, Eva. Freud amava aquele filho neurótico, frágil e bizarro, que sofria em decorrência de uma terrível rivalidade com seu irmão caçula, Ernst, mais brilhante que ele”. p. 278.

ERNST

Ernst obteve seu diploma de arquitetura em Munique. Apaixonado pela sua esposa Lucie Brasch, que incluiu em seu nome o L. de Lucie, vindo a se chamar Ernst L. Freud. “Lucie soube seduzir Freud e ambos obrigaram Ernst a passar três meses no sanatório de Arosa a fim de tratar a tuberculose que ele contraíra durante a guerra”. p. 278.

O casal teve três filhos que foram apelidados de “os arcanjos”. Ernst trilhou uma carreira excepcional, trabalhando como arquiteto para “Eitingon, Abraham, Karen Horney, René Spitz, Sándor Rado, Hans Lampl e, mais tarde, para Melaine Klein. Além disso,, encarregou-se da instalação célebre “policlinica”e, mais tarde, do sanatório de Tegel, fundado por Ernst Simmel. Com suas tendências modernistas, rompeu com a estética sufocante dos interiores vienenses tão prezados por seu pai: tapetes grossos, reposteiros pesados, vitrines transbordantes, paredes sobrecarregadas de quadros, móveis tomados por objetos. Freud não se interessava por esse aspecto do talento do filho, o qual alías, após a partida para o exílio londrino, decorou a última morada paterna no mais puro estilo da Viena de antigamente, da qual não obstante não sentia qualquer nostalgia”. p. 279.

Anna Freud – A filha caçula

“Anna não havia sido desejada nem pela mãe nem pelo pai, e passara a juventude lutando para existir, depois rivalizando com sua tia Minna para ter acesso ao conhecimento da obra paterna. Em janeiro de 1913, deixara explodir seu ciúme da irmã: “Parei de bordar a colcha de Sophie, e é sempre um pouco desagradável para mim, quando penso que teria gostado de terminá-la. Penso, naturalmente, com muita frequência no casamento de Sophie. Mas Max, na realidade, é completamente indiferente para mim”. p. 281.

No ano de 1923, Anna Freud decidiu que não iria mesmo se casar. Freud, nessa época, a apelidou com o nome de “Antígona”e a presenteou com um pastor-alemão, o qual deu o nome de Wolf e passou a fazer parte da casa. 

Anna Freud fez sua análise pessoal com o próprio pai e “conheceu a mulher que se tornaria sua companheira a vida inteira: Dorothy Tiffany Burlingham. Nascida em New York, e neta do fundador das lojas Tiffany & Co, ela se casara com um cirurgião, Robert Burlingham, acometido de psicose maníaco-depressiva. Para escapar a seus acessos de loucura, ela viajara a Viena, determinada a tratar sua fobia e a entregar à família Freud o destino de seus quatro filhos: Bob, Mary (Mabbie), Katrina (Tinky) e Michael (Mikey). ” (…) Anna negou categoricamente a existência de um relacionamento com a nova amiga, maneira de permanecer fiel ao único homem que amou: seu pai.” p. 288

Anna, mais tarde conhece uma nova amiga Eva Rosenfeld e, as 3 juntas, fundaram uma escola particular “destinada a receber crianças em terapia com ela ou outros discípulos do círculo mais íntimo, e cujos pais também eram analisados em Viena”. p. 288

Os cachorros de Freud

Além do pastor-alemão Wolf, Freud chegou à família uma chow-chow chamada Lun-Yu. Freud escreverá em 1929: Nossos dois cães, Wolf e a doce chinesa Lun-Yu, representam a expansão mais recente da família”. p. 289.

Antiguidades

Além da dedicação à família e aos cachorros, outra grande paixão de Freud eram as antiguidades. “Tendo lido muito mais obras de arqueologia do que de psicologia, transformara seus aposentos na Berggase num verdadeiro museu (…) um grande conjunto de estatuetas – gregas, chinesas, egípcias, pré-colombianas – povoava os diferentes aposentos da residência freudiana. Como num filme mudo, os objetos procedentes das civilizações antigas deixavam pairar suas sombras e luzes sobre a vida dos cães e humanos”. 290.

“Assim que entrava nesse aposento, onde recebia seus pacientes na presença de sua chow-chow, Freud saudava seu sábio chinês instalado na borda da escrivaninha, cercado à esquerda por uma estatueta de Inhotep – deus do saber e da medicina – e à direita por uma divindade egípcia menor. Assim, os guardiões do corpo e do espírito zelavam pelo bom andamento das sessões ou do ato de escrever”. p. 290.

Você, caso não conheça ainda, poderá também ver essa entrevista famosa de Freud aos 70 anos, em um post que já coloquei por aqui: A famosa entrevista de Freud aos 70 anos

Enfim, o objetivo de post foi apenas de trazer um pouco sobre a família de Freud que, como qualquer outra família, apresentava lá seus problemas e desafios. Porém, o que se observa em Freud é que, além de sua dedicação a profissão e aos seus pacientes,  foi um pai, avô e provedor de sua família, se dedicando com amor  em todos os aspectos.

Era isso por hoje.

Obrigada por sua visita. Você é sempre bem vindo(a) por aqui.

Um abraço.

 

Referência: ROUDINESCO, E. – Sigmund Freud – na sua época e em nosso tempo-  Ed. Zahar, Rio de Janeiro, 2016.