Lacan e o Caso Aimée

Oi Gente

O post hoje traz para você um pouco sobre em qual momento Lacan iniciou seus questionamentos sobre a personalidade. Saiba aqui sobre o seu estudo de caso, que deu origem a sua tese de doutorado: O Caso Aimée…

Lacan, ainda um jovem médico psiquiatra fez seu estágio no Hospital Saint-Annee, onde:

“Constata-se que a historicidade está veiculada ao acompanhamento, durante um ano e meio, de uma paciente que ele chamou de Aimée. É com base neste trabalho que Lacan constrói a tese segundo a qual a natureza da cura demonstraria a natureza da doença. É importante pontuar que o termo “cura” é utilizado no seu valor clínico de redução de todos os sintomas mórbidos. Desse modo, o fato de a paciente, cerca de vinte dias após ter cometido um atentado contra a atriz Huguette ex-Duflos, não apresentar nenhum delírio focaliza a problemática do estudo.Na época havia dois conceitos sobre a personalidade que era um da linha francesa e outra da linha germânica. Nessa época então a psicose era algo como do exagero.”

No início da carreira médica de Lacan, dentro do pensamento francês, as ideias de Freud estavam cada vez mais ganhado espaço. Surge a revista Evolution Psichiatrique e também a Societe Psychanalytique de Paris. “Por outro lado, a literatura também havia acolhido com entusiasmo a nova concepção da sexualidade humana que provinha da psicanálise”.

Lacan atribui o nome de Aimée a paciente que acompanhou durante seu estágio no Hospital Saint-Anne e utilizou esse estudo para sua tese de doutorado em psiquiatria, cujo o Tema foi “Da Psicose Paranóica em suas Relações com a Personalidade”. Nesse momento, influenciado pelo surrealismo, Lacan recusa o organicismo vigente na época para a compreensão da loucura.

Em 1932 Lacan publica sua tese onde se encontra o estudo de um caso de paranóia feminina, caso esse que ficou conhecido como o famoso Caso Aimée.

CASO AIMÉE

Aimée ( Marguerite Pantaine Anzieu- seu verdadeiro nome) era uma jovem senhora, de 38 anos, que foi internada no Hospital Saint-Anne. A sua internação aconteceu após uma atitude tomada em uma noite, quando a mesma foi a  um Teatro onde havia se apresentado uma artista famosa de Paris, dos anos 30,  chamada Hughette Duflos, a qual Aimée avança sobre a mesma com uma navalha, ferindo-lhe a mão.  Com isso, foi presa durante um período e, logo em seguida, encaminhada para a internação no referido Hospital. 

Antes desse episódio, Aimée, uma funcionária pública dos correios, casada com René Anzieu, também funcionário público, já havia apresentado alguns antecedentes com traços paranóicos. Quando engravidou de seu filho Didie, em 1921,  Aimée apresentou estranhos comportamentos como mania de perseguição e estados depressivos. “Após o nascimento do filho instalou-se numa vida dupla: de um lado, o universo cotidiano das atividades de funcionária dos correios; e de outro, uma vida imaginária feita de delírios.”

Aimée, foi criada em um meio católico,  burguês e sua mãe sofria de sintomas de perseguição. Desde muito cedo sonhava se tornar uma intelectual, uma romancista e seu maior desejo era ser escritora, tendo inclusive produzido alguns textos os quais nunca conseguiu publicá-los.

“A partir da frustração de nunca ter seus textos aceitos para publicação é aí, também, que se seguem suas ideias delirantes de perseguição, como a erotomania ( “consiste na convicção delirante de uma pessoa que acredita que outra pessoa, geralmente de uma classe social mais elevada, está secretamente apaixonada por ela”),  a qual será em grande parte relacionada, em Aimée, ao príncipe de Gales.”

Tinha o costume de enviar cartas e seus escritos  ao príncipe de Gales. Ela desenvolveu idéias de perseguição direcionadas à artista, bem como a um novelista famoso,  apresentando características megalomaníacas onde acreditava ser uma pessoa conhecida por todos. 

“Os delírios de perseguição de Aimée relativos às pessoas citadas também aparecem enquanto da idéia de “querem matar meu filho”- filho do qual se distanciou, mas com quem continuava mantendo contato”. Sabe-se que Aimée deixou o filho aos cuidados do pai para se dirigir a Paris sozinha para realizar o seu sonho de ser escritora.

Já internada e aos cuidados do jovem psiquiatra, Aimée conta suas histórias através de várias entrevistas confiando a Lacan, inclusive, suas cartas e escritos. Nesse estudo de caso, Lacan cria o conceito de “paranóia de autopunição”. “Lacan mostra que ao atacar a atriz, na verdade, Aimée estava atacando a si mesma, ao seu Ideal de Eu.

A tese de Lacan marca uma passagem da Psiquiatria à Psicanálise, pois nela vemos que Lacan vai buscar explicação para o caso, não na Psiquiatria e sim nos conceitos Freudianos”. 

Mesmo após a sua internação, Aimée continua a escrever, porém reconhecendo que suas ideias anteriores estavam equivocadas. Demonstrou ter conhecimento de suas ações e pensamentos anteriores o que importava mais naquele momento era a sua saída da clínica.

Quando Aimée sai de seu confinamento, a mesma não parou totalmente de apresentar seus delírios, porém parou de cometer atos que poderiam se voltar contra ela própria.

De acordo com Roudinesco,A propósito, um manuscrito de Marguerite Anzieu, iné- dito até esta data, redigido em Sainte-Anne e datado de 21 de novembro de 1931, revela que, após vários meses de consultas, ela continuava igual. Nesse documento, que se apresenta como uma espécie de autoanamnese, ela fala de sua infância, dos irmãos, da mãe e dos sofrimentos que os amigos lhe infligiram e que ela não merecia. E diz-se incapaz de se defender contra um círculo que a persegue. Por fim, queixa-se de ter sido separada do filho e não poder criá-lo como teria i.| Lacan, a despeito de tudo e de todos desejado. Depois, acrescenta: “A opinião dos outros não me afeta em nada, mas não há nada que me aterrorize mais do que quando me dizem que não confiam em mim. Todo mundo diz que sou estúpida e é só o que fica.”

“Marguerite então ficou célebre sob o nome de Aimée, proporcionando ao mesmo tempo celebridade àquele que redigira sua história, uma vez que lhe permitiu efetuar uma magnífica síntese de todas as teorias clínicas elaboradas pela geração psiquiátrica dos anos 193o.  O livro do qual ela era a heroína foi saudado como uma obra-prima literária por escritores, pintores e poetas: René Crevel, Paul Nizan, Salvador Dali, principalmente. Todos admiraram a utilização feita por Lacan dos textos romanescos da paciente”

Dunker nos fala que: “A tese de doutoramento apresentada em 1932 por Lacan pode ser entendida como uma tentativa de aproximar  as tradições francesa e alemã de psiquiatria. Seu título “Da Psicose Paranóica em suas Relações com a Personalidade” (1932) agrega uma entidade clínica cujo paradigma descritivo e nosológico fora fixado por Kraepelin (especialmente nas edições de 1899 e 1915) (1) e um tema que se encontra nas próprias raízes da psiquiatria francesa: a personalidade. Ao longo de toda a tese, vemos Lacan criticar a falta de uma teoria da personalidade mais consistente nos alemães e a falta de uma atitude descritiva mais consistente nos franceses.” 

Enfim, o objetivo do post foi apenas apresentar um pouco sobre o caso Aimée. Caso tenha interesse em aprofundar seus conhecimentos sobre o assunto, a bibliografia aqui apresentada abaixo, fica como sugestão.

 

Era isso por hoje.

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Um abraço.

 

 

 

 

 

 

 

Referências:

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-14982001000200006

http://lacan.orgfree.com/lacan/biografia.htm

http://www.litura.com.br/curso_repositorio/licoes_da_psicose_iia__marguerite__pdf_1.pdf

http://www.acheronta.org/acheronta28/dunker.htm

http://www.nucleodestudosfreudianos.com/resources/Elisabeth%20Roudinesco%20-%20Lacan,%20a%20despeito%20de%20tudo%20e%20de%20todos.pdf